Quando devemos parar de tentar “consertar” tudo?
Há pessoas que têm
um radar natural para o caos. Que o sentem à distância. Que percebem de
imediato quando algo está errado numa relação, num grupo ou num ambiente. E,
por instinto, tentam arranjar, apaziguar e consertar. E fazem-no com o coração
no sítio certo. Mas, às vezes, com o corpo já cansado e a alma num limite
silencioso.
O impulso de resolver tudo vem muitas
vezes de um sítio bonito: da empatia, da preocupação e do cuidado genuíno com
os outros. Mas também pode vir de outro lado - de um medo profundo de ver as
coisas desmoronar, de uma necessidade de controlo, de uma vontade (às vezes
inconsciente) de provar que somos úteis. Que somos bons. Que somos
indispensáveis.
O problema? É que há coisas que não se
consertam. E há outras que nem sequer são nossas para tentar consertar.
Pode ser numa relação em que só um
tenta manter tudo de pé. Pode ser numa amizade que já só existe quando és tu a
insistir. Pode ser na carreira, quando estás a compensar por erros que não
fizeste ou por ta
refas que ninguém assume. E, devagarinho, esse papel constante
de resolvedor de problemas começa a pesar. A desgastar. A sugar.
E mesmo assim continuamos. Porque sentimos
culpa só de pensar em desistir. Porque achamos que, se deixarmos de tentar,
estamos a falhar. Mas e se, na verdade, desistir de consertar algo for
precisamente o que te salva?
Nem tudo está nas nossas mãos. As
escolhas dos outros, por muito que custe, pertencem-lhes. As mudanças que
queremos ver, às vezes, não dependem de nós. E há dores que não podemos curar,
porque nem sequer fomos nós que as causámos.
Parar não é abandonar. É reconhecer o
próprio limite. É escolher cuidar de ti antes de te perderes a tentar salvar o
que não quer ser salvo. É admitir que há coisas que não se resolvem - só se
aceitam.
Então, quando é que se deve parar de
tentar consertar tudo?
Quando o esforço já não é partilhado.
Quando começas a apagar-te para manter os outros acesos.
Quando sentes que estás a remar sozinho, sem sequer saber se a outra pessoa
ainda está no barco.
Quando a tua energia está a ir toda para fora e já não sobra nada para dentro.
No fim, há uma frase que me ajuda: nem
tudo o que se parte precisa de ser consertado. Às vezes, é só um sinal de
que aquele capítulo acabou. Ou de que já fizeste tudo o que podias. Ou, talvez,
de que está na hora de olhar menos para o que está fora do sítio... e mais para
o que dentro de ti precisa de descanso.
Se te reconheces nisto, talvez já
saibas a resposta. Talvez não precises de consertar mais nada agora. Talvez só
precises de parar. Respirar. E deixar o mundo existir, sem precisares de ser o
suporte dele.



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