Fases da vida: que ciclos precisamos encerrar?
A vida não é uma
linha reta - é feita de capítulos. Cada fase tem as suas rotinas, os seus
rostos e os seus rituais. Tem um ritmo próprio, um certo tipo de perguntas que
se fazem com mais frequência, um tipo de silêncio que se aprende a escutar.
Mas, às vezes, custa aceitar que um desses capítulos acabou. Mesmo quando já
não faz sentido continuarmos a folheá-lo. E aí ficamos presos a páginas
antigas, como quem tenta regressar ao início de um livro que já foi lido.
As fases da vida podem ser muitas
coisas: a infância marcada por inocência, a adolescência feita de descobertas e
dores de crescimento, o início da vida adulta, onde tudo parece urgente. Depois
vêm as decisões profissionais, as relações que achamos que vão durar para
sempre, os lutos, as mudanças de cidade, de pele e de propósito. Cada fase pede
uma versão diferente de nós. Mas a verdade é que, por dentro, nem sempre
acompanhamos essa mudança. Crescemos biologicamente, mas podemos ficar
emocionalmente colados a uma versão mais antiga do nosso eu.
Ficar preso a uma fase pode parecer
conforto, mas, na verdade, é estagnação disfarçada. Há hábitos, rotinas,
relações ou até sonhos que já não nos servem. Só continuam ali porque nos
remetem para uma altura em que nos
sentíamos mais seguros, mais vistos ou mais
protegidos. Pode ser uma relação que já devia ter acabado, mas que nos lembra
uma versão feliz do passado. Pode ser uma amizade que se arrasta, sem presença
verdadeira, só por nostalgia. Pode ser uma forma de viver que já não se encaixa
na pessoa que nos tornamos - mas que ainda mantemos por medo do vazio que a
mudança pode trazer.
Encerrar ciclos não significa cortar
radicalmente, nem apagar o que foi. Encerrar é aceitar. É reconhecer que uma
história já cumpriu o seu papel e que devemos deixá-la descansar com gratidão.
Quando não encerramos o que já devia ter ficado para trás, arrastamos connosco
pesos invisíveis. E isso torna mais difícil viver o presente de forma inteira.
Há também pessoas que pertencem a
fases, não à vida toda. E tudo bem com isso. Há relações que foram essenciais
numa altura específica - e que cumpriram exatamente aquilo que tinham de
cumprir. Mas insistimos, vezes demais, em arrastá-las para os capítulos
seguintes, como se a presença delas ainda fizesse sentido, só porque fizeram
parte de uma fase bonita. Saber reconhecer que uma ligação foi importante no
seu tempo, e libertá-la sem raiva, é uma forma de maturidade.
Mas como é que sabemos que um ciclo
precisa mesmo de terminar? Quando já não nos sentimos inteiros onde
estamos. Quando o que sentimos é mais nostalgia do que vontade. Quando estamos
a repetir padrões antigos só porque é o que conhecemos. Quando percebemos que,
por muito que custe, manter aquela fase viva nos está a impedir de crescer.
Fechar ciclos dói. Mas também liberta.
E é no espaço que fica, depois do fim, que nasce o novo. Crescer implica perder
coisas pelo caminho, deixar partes de nós para trás, permitir-nos mudar de
opinião, de hábitos e de amor. Tal como uma árvore precisa de perder folhas
para florescer, também nós precisamos de soltar aquilo que já não pertence a
esta estação da nossa vida.
Encerrar um ciclo é um ato de coragem -
e de amor-próprio.



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