Qual é o peso das expectativas que colocamos em nós próprios?
Já falei antes sobre as
expectativas que os outros colocam em nós - e também sobre aquelas que criamos
em relação aos outros. Mas há um tipo de expectativa que costuma passar
despercebida e, ainda assim, pode ser das mais pesadas: as que colocamos em
nós próprios.
Há dias em que ninguém nos cobra nada,
ninguém nos exige nada... e mesmo assim, sentimo-nos culpados, pressionados ou
exaustos. Porquê? Porque somos nós que estamos, em silêncio, a cobrar tudo.
Queremos fazer tudo bem. Queremos ser tudo o que achamos que devíamos ser.
Queremos estar “à altura” - mesmo que não saibamos exatamente do quê.
Às vezes, estas expectativas até vêm
disfarçadas de motivação: “Quero dar o meu melhor”, “Quero fazer as coisas como
deve ser”. E sim, querer melhorar é ótimo. Mas quando essa exigência se
transforma numa voz interna implacável, deixa de ser saudável. Começa a ser um
peso que nos trava, que nos desgasta e que nos faz sentir constantemente
insuficientes.
Grande parte destas exigências nem vêm
d
e nós - não de forma consciente, pelo menos. Absorvemo-las. Da família, da
escola, da sociedade. Daquela ideia de que, aos 20 e poucos anos, já devíamos
ter tudo encaminhado. Da comparação constante com os outros, principalmente nas
redes sociais, onde só se mostra o melhor ângulo, o melhor momento e o melhor
feito.
E o resultado? Mesmo quando alcançamos
algo bom, achamos que podíamos ter feito melhor. Mesmo quando temos vontade de
começar algo novo, adiamos por medo de não ficar perfeito. É como se houvesse
uma régua invisível que nunca conseguimos atingir - porque fomos nós próprios
que a colocámos demasiado alto.
Este tipo de pressão interna pode levar
ao cansaço, à frustração, à paralisia. E, em vez de nos fazer crescer,
afasta-nos daquilo que realmente queremos fazer. Porque quando o foco está
apenas em não falhar, deixamos de experimentar, de arriscar, de aprender com os
erros.
É aqui que entra o paradoxo: queremos
tanto o melhor de nós, que acabamos a impedir esse “melhor” de acontecer.
Achamos que baixar expectativas é desistir. Mas não é. Baixar expectativas é
criar espaço para sermos humanos. Para respirarmos. Para tentarmos, falharmos e
tentarmos outra vez, com menos culpa e mais gentileza.
Então, como podemos aliviar esse peso?
Começa por reconhecer os momentos em
que estás a ser duro contigo sem motivo. Questiona: esta exigência é real ou
estou a criar um padrão impossível de alcançar? Aprende a celebrar os
progressos - não só os resultados finais. E, acima de tudo, repara na forma
como te falas: estás a incentivar-te ou a criticar-te?
A pergunta-chave talvez seja: “Estou
a exigir isto de mim por amor ou por medo?”
Se for por amor, continua. Se for por medo, talvez seja hora de parar e
respirar.
No fim de contas, ser gentil connosco
não significa desistir de crescer. Significa escolher crescer de forma
sustentável. Com espaço para falhar, sim - mas também com espaço para viver.
Porque, às vezes, o que mais precisamos
não é mais esforço. É menos peso.



Comentários
Enviar um comentário