Qual é a importância de sabermos estar sozinhos?
Falei noutro artigo
sobre como é importante termos pessoas que nos ajudam - pessoas com quem
podemos contar, desabafar, rir, partilhar silêncios e quedas. O ser humano é,
por natureza, um animal social. Mas hoje queria falar do outro lado: o que
fazemos quando estamos sozinhos? Sabemos estar só connosco?
Há uma diferença gigante entre estar
só e sentir-se só. Uma é circunstancial - posso estar sozinho numa
tarde de domingo e estar bem com isso. A outra é mais dolorosa - posso estar
rodeado de gente e, ainda assim, sentir-me invisível. Mas, por alguma razão,
aprendemos a associar o “estar sozinho” a um falhanço, a um vazio, como se o
silêncio fosse um inimigo e a presença constante dos outros fosse sinónimo de
vida plena. E não é.
Estar sozinho incomoda porque obriga a
encarar o que cá vai dentro. E a verdade é que muita gente tem medo de fazer
isso. Medo de se ouvir. Medo do que pode descobrir. Medo de não gostar da
própria companhia. Somos levados a distrair-
nos constantemente: entre redes
sociais, notificações, podcasts, músicas e barulho, é fácil escapar de nós
mesmos. Mas fugir do silêncio não nos aproxima da paz - só nos afasta dela.
Aprender a estar sozinho é, por isso, uma
forma de maturidade emocional. Quando estamos sós, sem pressa, sem ruído,
conseguimos ouvir melhor. Não o mundo, mas a nós próprios. O que queremos, o
que toleramos, o que já não encaixa. Às vezes, basta uma caminhada sem
auscultadores ou um café solitário numa esplanada para que as ideias se alinhem
sem esforço. Já todos tivemos esse momento: sozinhos num quarto ou a olhar para
a janela do autocarro e… fez-se luz. Estar sozinho tem disso - clareia.
Além disso, é na solidão que muitas
vezes criamos, descansamos e curamos. Não se trata de isolamento, mas de recolhimento.
Um espaço nosso, onde podemos respirar sem filtros. Onde a autenticidade não
precisa de aprovação. Onde o barulho do mundo dá lugar ao nosso ritmo.
Claro que não se aprende a gostar da
própria companhia de um dia para o outro. Mas é possível ir cultivando esse
espaço. Caminhadas sem distrações. Escrever num caderno só para ti. Estar em
silêncio. Sentar-te contigo e ver o que acontece. Há dias em que é
desconfortável, e tudo bem. Estar só também é um treino.
O mais bonito disto tudo? Quando
aprendemos a estar connosco, escolhemos melhor as companhias. Porque já
não precisamos de alguém para preencher um buraco - queremos alguém para
partilhar a paisagem.
Saber estar só não significa rejeitar
os outros. Significa apenas que já aprendeste a acolher-te a ti primeiro.



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