Como nos sabotamos sem perceber?

  A autossabotagem raramente grita. Não chega com luzes de néon a avisar: “estás a estragar tudo.” Muitas vezes, é discreta. Veste-se de prudência, disfarça-se de perfeccionismo ou até se apresenta como “bom senso”. E é assim que acabamos, sem dar por isso, a colocar obstáculos no nosso próprio caminho - nos relacionamentos, no trabalho, nos sonhos e até na forma como nos tratamos.
  Sabotar-se é isso: querer muito uma coisa, mas impedir-se de a viver plenamente. É desejar ser feliz, mas duvidar que se merece. E o pior? Grande parte das vezes, nem percebemos que o estamos a fazer.
  Há comportamentos que parecem inofensivos, mas são autênticas armadilhas:

  • A procrastinação, com aquela desculpa clássica de que “não é o momento certo.”
  • O perfeccionismo, que nos convence de que só podemos avançar quando tudo estiver impecável.
  • A fuga de relações saudáveis porque “tenho de me proteger”.
  • A comparação constante que nos faz achar que nunca estamos à altura.
  • A autocrítica severa, que nos destrói por dentro antes sequer de tentarmos.

  Em muitas áreas da vida, estas atitudes fazem-se notar. Nos relacionamentos, afastamos quem gosta de nós por medo de sermos rejeitados. Na carreira, recusamos oportunidades porque achamos que não vamos conseguir. Nos sonhos, adiamos projetos que nos entusiasmam por acharmos que ninguém vai ligar. E até nas rotinas simples - negligenciar o descanso, recusar ajuda ou evitar elogios - acabamos por reforçar a ideia de que não somos importantes.
  Mas porquê?
Porque temos medo.
Medo de falhar, de nos magoarmos e de não sermos suficientes.
Às vezes, é mais fácil não tentar do que tentar e cair.
Mais fácil afastar do que ser deixado.
Mais fácil esconder do que mostrar quem somos.
  Só que, no fundo, tudo isto nos afasta da vida que queremos.
  Então, como se quebra este ciclo?
  Começa pela consciência. Reconhecer os padrões. Perguntar: isto que estou a fazer, é mesmo proteção ou é medo disfarçado?
  Depois, é preciso mudar o discurso interno. Trocar o “sou uma desgraça” por um “ainda estou a aprender.” Aceitar que errar não nos faz menos dignos. E permitir-nos dar pequenos passos - porque é no
s gestos pequenos que se começa a construir uma confiança nova.
  Sabotar-se não é sinal de fraqueza. É, muitas vezes, um reflexo antigo, uma defesa que já não faz sentido. Mas reconhecer isso é o primeiro passo para fazer diferente.
  Porque a verdade é esta: quando deixamos de ser quem nos trava, passamos a ser quem se liberta.


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