Porque é que o corpo não sossega?
Já reparaste como é
quase impossível manter a mesma posição por mais de 15 minutos, mesmo quando
achamos que estamos confortáveis? Seja na cadeira enquanto trabalhamos, na cama
antes de adormecer, ou até encostados no sofá a ver um filme, há sempre um
momento em que algo nos leva a mudar de posição. À primeira vista, pode parecer
uma questão física banal. Mas será só isso?
Fisicamente, a resposta é simples: o
co
rpo precisa de movimento. Ficar muito tempo na mesma posição causa
desconforto, má circulação e sobrecarga muscular. Mesmo sem nos apercebermos, o
nosso corpo vai dando pequenos sinais: um pé que adormece, uma perna dormente,
uma tensão nas costas. É o nosso sistema nervoso e muscular a pedir mudança,
ajuste e equilíbrio.
Mas talvez esta necessidade de mudar de
posição não seja apenas física. Talvez o corpo esteja a refletir algo mais
fundo - uma inquietação emocional ou mental. Vivemos num tempo onde tudo se
move depressa. Há sempre um estímulo novo, uma notificação, uma ideia a meio. E
isso afeta também a nossa capacidade de estar quietos e presentes. Quando
tentamos parar, o desconforto aparece, não só nos músculos, mas também nos
pensamentos. Há silêncio. E o silêncio, às vezes, custa mais do que qualquer
dor física.
No campo criativo, essa inquietação
também se manifesta. Há uma certa impaciência com a mesma ideia, o mesmo estilo
ou o mesmo texto. Por vezes, não conseguimos sustentar uma posição criativa por
muito tempo - e isso leva-nos a procurar novas abordagens. Mudamos de
perspetiva como mudamos de postura: em busca de algo que nos faça sentido, que
nos alivie, que nos permita continuar. Tal como no corpo, o desconforto na arte
pode ser fértil - empurra-nos a crescer.
No fundo, talvez esta necessidade
constante de nos ajustarmos seja uma metáfora para a vida. Estamos sempre a
tentar encontrar o ponto certo entre o conforto e o esforço, entre o que somos
e o que precisamos de ser. E essa procura nunca é estática. Pode ser exaustiva,
mas também é bela: significa que estamos atentos, vivos e sensíveis ao que
sentimos.
Talvez mudar de posição tantas vezes
seja só mais uma forma de nos lembrarmos que o conforto não é um lugar fixo. É
um movimento constante. E aprender a ouvi-lo - seja no corpo ou na alma - pode
ser o primeiro passo para entender o que realmente nos inquieta.



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