O que significa ser criativo quando tudo já parece ter sido feito?

  Vivemos num tempo em que a partilha de ideias é constante. O acesso à criatividade dos outros é quase ilimitado, e todos os dias somos expostos a dezenas, se não centenas, de vozes, projetos, estilos e conceitos. E, no meio disso tudo, surge uma pergunta inevitável: ainda é possível criar algo verdadeiramente nosso?
  Essa pergunta carrega outra, menos óbvia mas igualmente importante: vale a pena tentar?

O problema crescente do plágio

  É impossível ignorar que, em todas as áreas criativas - da escrita à música, do design à moda - o plágio tem-se tornado um tema recorrente. Não apenas o plágio direto (a cópia literal de uma obra), mas aquele mais subtil, onde se copia o tom, a ideia central ou o estilo, adaptando aqui e ali (chamado de ‘inspiração’).
  A linha entre inspiração e imitação nunca foi tão ténue. E, muitas vezes, nem é feita com má intenção. Vivemos rodeados de referências, tendências e fórmulas “que funcionam”. Somos ensinados, implicitamente, a repetir o que dá certo. Afinal, o algoritmo recompensa a familiaridade - e isso molda a criação.
  Mas há um risco nesse ciclo: começamos a confundir repetição com criatividade.

A sensação de criar algo nosso

  No meio desse mar de semelhanças, criar algo verdadeiramente nosso é, muitas vezes, um ato solitário. Pode parecer que estamos a remar contra a maré. Que a nossa voz não encaixa nas tendências. Que aquilo que queremos fazer é “diferente demais”, ou até “irrelevante”.
  E, no entanto, quando conseguimos, há uma sensação única: a de que fizemos algo que só poderia ter vindo de dentro de nós. Que não seguiu fórmulas. Que não foi moldado para agradar, mas para existir com verdade.
  É essa sensação que nos relembra porque começamos a criar em primeiro lugar.

O que não pode ser copiado

  Num mundo de cópias, a autenticidade
torna-se um dos bens mais preciosos. E o curioso é que, por mais que copiem ideias, estéticas ou estruturas, há algo que não se consegue replicar: a intenção.
  Ninguém pode viver o que tu viveste. Ninguém pode escrever, desenhar, compor ou construir com a bagagem exata que tu tens. A tua experiência pessoal, as tuas dores, as tuas alegrias e os teus silêncios - tudo isso dá origem a uma voz que é só tua.

  Podem copiar o que fizeste. Mas nunca vão conseguir ser tu enquanto o faziam.

E quando te copiam?

  É natural sentir desconforto quando alguém parece ter-se inspirado “demais” no nosso trabalho. Mas, se formos a fundo, podemos encontrar nisto um outro significado: se algo nosso foi copiado, é porque tinha valor. E o mais importante é que, enquanto alguém está ocupado a reproduzir o que já foi feito, quem criou segue a criar.
  Ser copiado nunca deve ser o nosso medo principal. O maior risco é deixarmos de criar por medo disso.
Continuar a criar é um ato de coragem
  Criar algo nosso, no meio de tantas cópias, pode parecer inútil - mas é o contrário. É um gesto de resistência. É escolher ser verdadeiro num mundo que, muitas vezes, nos empurra para sermos apenas funcionais.
  É por isso que vale a pena continuar. Porque as criações mais marcantes, mesmo quando não são compreendidas de imediato, têm uma força que o tempo reconhece. E porque alguém, algures, está à espera de algo que só tu podes oferecer.

Comentários

Se gostaste deste artigo, talvez gostes de um destes!