E se me conhecerem antes de eu me apresentar?
No artigo anterior,
falei sobre o medo de mostrar o que escrevemos - seja por insegurança, medo de
críticas ou receio de que algo íntimo seja mal interpretado. Mas há uma camada
ainda mais profunda nessa exposição: a vulnerabilidade que existe por trás da
escrita pessoal.
Todos os meus livros têm partes de mim.
Quem me conhece bem e lê com atenção, provavelmente consegue ligar os pontos.
Certos pensamentos, certos comportamentos de personagens, determinadas
situações ou feridas emocionais… não nasceram apenas da criatividade, mas da
minha experiência, da forma como vejo o mundo e, muitas vezes, de coisas que
vivi. Mesmo numa história ficcional, carrego comigo detalhes que me moldaram.
Escrever tornou-se, por isso, uma maneira indireta de me revelar - como se
dissesse o que sinto, sem precisar de dizer “sou
eu que estou aqui”.
No blog, esse processo é ainda mais
direto. Escrevo sobre experiências minhas, sobre a forma como penso, os medos
que tenho e as dúvidas que me atravessam. Ao fazê-lo, não estou apenas a
partilhar pensamentos - estou, de certa forma, a permitir que desconhecidos me
conheçam por dentro. E isso levanta uma pergunta desconfortável: e se um dia
eu conhecer alguém que já leu tudo o que escrevi e, sem eu me apresentar, essa
pessoa já me conhecer? Porque dar-me a conhecer não é algo que eu faça com
facilidade. Na escrita, essa barreira parece desaparecer. Mas será que é uma
escolha ou uma exposição involuntária?
Existe uma linha muito ténue entre
escrever com autenticidade e sentir que nos estamos a despir emocionalmente
diante de desconhecidos. Por vezes, ao publicar um texto, há aquela sensação de
“fui longe demais” - como se me tivesse mostrado mais do que queria. E mesmo
que ninguém saiba exatamente onde termina a ficção e começa a realidade, eu
sei. E isso basta para que a escrita se transforme num espelho.
Ainda assim, acredito que é nesse lugar
de vulnerabilidade que reside a força de uma boa escrita. Quando escrevemos com
verdade - mesmo que nos sintamos expostos - há uma conexão mais humana e mais
palpável, com quem lê. E talvez, no fim, escrever seja isso: a forma mais
honesta de nos ouvirmos a nós próprios antes de deixarmos o mundo ouvir-nos.



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