Como saber se o que escrevemos vale a pena?
Numa era em que
toda a gente escreve, partilha, publica e comenta, surge uma dúvida silenciosa,
mas persistente: como s
ei se aquilo que escrevi vale realmente a pena?
Já falei noutros artigos sobre a importância de acreditarmos no que criamos,
mesmo que isso vá contra tendências, cópias e fórmulas seguras. Mas acreditar,
por si só, não resolve tudo. Como podemos distinguir entre algo com verdadeiro
valor e algo que, por mais honesto que seja, ainda está mal escrito?
Acreditar em nós não é arrogância, é ponto de
partida
Escrever é sempre
um ato de coragem. Ao escolher não seguir o que está “na moda” e criar a partir
de um lugar mais íntimo, corremos o risco de não ser compreendidos - e ainda
assim, talvez seja esse o maior sinal de que estamos a escrever algo nosso. Eu
próprio sinto esse medo. Mas é importante reconhecer que nem tudo o que
escrevemos, só por vir de nós, está automaticamente bem escrito ou pronto para
ser partilhado. Acreditar é necessário, sim, mas precisa de vir acompanhado de
algum espírito crítico e humildade.
Como distinguir um texto mal escrito de um
texto com valor?
É fácil confundir
autenticidade com qualidade. Um texto pode ser sentido, pessoal ou verdadeiro -
e ainda assim não funcionar enquanto texto. Pode estar mal estruturado, com
frases confusas ou ritmo desequilibrado. Pode não dizer exatamente o que se
quer transmitir. A boa escrita é intencional, mesmo quando parece espontânea. E
é por isso que existem reescritas.
Coisas a ter em conta:
- Está
clara a mensagem que quero passar?
- O
texto tem ritmo ou parece pesado e cansativo?
- O
estilo está a servir o conteúdo ou a tentar parecer “bonito” sem motivo?
- A
emoção que queria transmitir está lá, ou só eu é que a vejo?
A distância revela o que o entusiasmo esconde
Uma técnica que
ajuda muito é deixar o texto repousar. Pousá-lo durante uns dias (ou semanas) e
voltar com olhos limpos. Às vezes, o que parecia incrível no momento parece
forçado depois. Outras vezes, percebemos que a essência está lá, só precisa de
ser melhor lapidada. A distância permite-nos ser leitores do nosso próprio
texto - e isso muda tudo.
Também vale
perguntar: Se eu encontrasse este texto de alguém que não conheço, ele
tocava-me? Eu parava para o ler até ao fim?
Nem tudo precisa de impacto exterior
Vivemos numa
cultura onde só parece “bom” o que tem resultados visíveis. Mas há textos que
servem para processar algo nosso. Há textos que nos curam. Outros que nos
desbloqueiam para escrever algo ainda melhor. E isso também vale a pena, mesmo
que ninguém leia.
A utilidade de um texto nem sempre está
no número de leitores. Às vezes está em ajudar-nos a ver algo com mais clareza,
ou em ser o ponto de partida para outra ideia que só vai surgir depois. Eu, por
exemplo, já tive várias ideias que poderiam dar origem a um livro, mas que, por
si só, não se sustentavam. Acabaram, por isso, por se transformar em partes de
um livro maior - um conjunto construído a partir de várias pequenas ideias.
E afinal... como saber?
Talvez a resposta
mais honesta seja: nunca sabemos com certeza. Mas há sinais. Se o texto ainda
faz sentido passado algum tempo. Se sentimos que dissemos mesmo o que queríamos
dizer. Se, ao reler, algo em nós sossega - ou agita, mas no bom sentido. Se o
texto continua a ser “nosso”, mesmo depois da dúvida.
Escrever é um equilíbrio constante
entre emoção e técnica, entre impulso e revisão. E a capacidade de distinguir
um texto genuinamente bom de um apenas “solto” cresce com a prática, com a
leitura e, acima de tudo, com a escuta atenta a nós mesmos e aos outros.
No fim, o que escrevemos vale a pena
quando nos transforma - mesmo que seja só um bocadinho. Porque se o texto te
tocou a ti, há uma boa hipótese de tocar mais alguém, um dia.



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