A dor pode ser matéria-prima para a escrita?
Nem sempre
conseguimos explicar em voz alta o que sentimos. Há dores que nos atravessam de
forma tão profunda que parece impossível traduzi-las. Mas, curiosamente, é na
escrita que muitas vezes encontramos um espaço seguro para dar forma àquilo que
nos magoou. Escrever transforma a dor - não porque a apaga, mas porque a
reorganiza.
Sempre que transformamos algo que nos
feriu em palavras, deixamos de ser apenas vítimas daquilo que nos aconteceu.
Tornamo-nos autores da forma como escolhemos lidar com isso. Às vezes, não
escrevemos exatamente o que nos aconteceu, mas a emoção fica ali, entranhada em
cada linha. Outra
s vezes, decidimos expor tudo, quase como se estivéssemos a purificar
a dor num texto cru, direto e sem metáforas. A verdade é que, independentemente
da forma, escrever sobre o que nos magoa é sempre um ato de coragem.
E como me faz sentir esse processo? É
estranho. Há uma sensação de alívio, de libertação, quase como se ao escrever
eu conseguisse respirar melhor. Mas há também um certo medo - de me expor
demasiado, de que alguém leia e perceba exatamente de onde veio aquela dor. É
um equilíbrio delicado entre a liberdade de me expressar e o receio de ser lido
em demasia. Porque, por mais que a dor já tenha passado, ela ainda é parte de
mim. E revê-la nas palavras que escrevi pode ser tão reconfortante quanto
desconfortável.
Pergunto-me muitas vezes se transformar
dor em palavras é uma arte ou apenas algo que todos fazemos instintivamente. A
verdade é que, de certa forma, é um pouco dos dois. A dor é universal, todos a
sentimos. Mas nem todos conseguimos comunicá-la de forma a que o outro também a
sinta. Há quem escreva apenas para si, como forma de desabafo - e isso já é
valioso. Mas há também quem consiga transformar essa dor em algo que toca o
outro, que o faz sentir menos só. E isso, acredito, é arte.
A honestidade é o que faz a diferença.
Não precisamos de embelezar a dor ou transformá-la numa história perfeita. O
mais poderoso, por vezes, é o que é mais cru e mais real. A escrita não cura, mas
organiza. Dá-nos uma nova perspetiva e um novo ângulo. Permite-nos olhar para o
que aconteceu de frente, com alguma distância e com mais clareza.
Escrever sobre dor é, no fundo, um ato
de reconciliação - connosco mesmos e com o passado. Não nos liberta
completamente, mas permite-nos seguir em frente com um pouco mais de leveza. E
talvez, ao fazê-lo, acabemos por criar algo que não só nos ajuda a nós, mas
também a quem lê.



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