Porque é que queremos tanto ser lembrados?
Esta pergunta, por
mais simples que pareça, carrega um peso enorme - e provavelmente muito mais
comum do que imaginamos. Desde que nos conhecemos como espécie, buscamos formas
de deixar a nossa marca: nas paredes das cavernas, nas estátuas, nos livros,
nas redes sociais. Mas porquê? O que há de tão insuportável na ideia de sermos
esquecidos?
Talvez a resposta esteja no medo da
morte. No artigo “Já pensaste na morte como parte da vida?”, falei sobre
como tendemos a ver a morte como o fim, em vez de a vermos como parte do ciclo.
E é precisamente esse fim que tantos tentam contornar deixando algo para trás:
uma herança, um legado, uma memória. Se alguém se lembrar de nós, então talvez,
de alguma forma, continuemos vivos - pelo menos um pouco mais.
No livro The Fault in Our Stars,
há uma conversa entre o Gus e a Hazel que ilustra bem este conflito. Ele, que
já tinha sido diagnosticado com uma doença violenta, confessa que quer ser
lembrado, deixar um impacto e ser importante. A Hazel, por outro lado, acha
essa vontade um tanto ridícula, por ser uma tentativa de lutar contra o
inevitável. “Não vai sobrar ninguém para se lembrar de Aristóteles ou de
Cleópatra, quanto mais de ti”, diz ela. E, ainda assim, Gus insiste. Porque,
para ele, ser lembrado é uma forma de não desaparecer por completo.
Este diálogo revela duas formas muito
humanas de encarar a vida e a morte: a necessidade de ser lembrado e a
aceitação que isso não é quase impossível. Mas qual delas está mais certa? Será
que viver com a intenção de ser lembrado nos motiva a fazer mais? Ou será que
nos torna ansiosos e sempre à procura de validação?
É curioso perceber como este desejo se
manifesta de diferentes formas: há quem queira fama, reconhecimento mundial ou
prémios. Outros só querem que alguém os guarde com carinho nas suas memórias.
Há quem escreva livros para ser eterno nas palavras, e quem tenha filhos com a
esperança de que a sua essência continue através deles. Mas há também os que
deixam marcas silenciosas: um professor que mudou a forma de um aluno ver o
mundo, um amigo que esteve presente num momento decisivo ou uma pessoa que
inspirou outra apenas por existir.
A verdade é que não controlamos o que
os outros vão lembrar-se - muito menos se se vão lembrar. E quando este desejo
se transforma numa obsessão, pode tornar-se uma prisão. Vivemos constantemente
a tentar provar o nosso valor, a fazer mais, a ser mais e a deixar mais - como
se isso fosse garantir que não seremos esquecidos. Mas esquecidos por quem? E
para quê?
Há ainda uma ideia distorcida de que só
os grandes feitos são dignos de memória. Que é preciso revolucionar o mundo
para que a vida tenha valido a pena. Mas, no fundo, somos lembrados pelos
gestos pequenos: pelas conversas na varanda, pelas mensagens de apoio e pelos
risos partilhados – tal como se vê no filme “Coco”. A profundidade de uma
memória não se mede pela quantidade de pessoas que a guardam, mas pelo
significado que ela teve.
Talvez o desejo de ser lembrado seja,
na verdade, uma forma de procurar sentido. De provar a nós próprios que a nossa
passagem por aqui valeu alguma coisa. E se assim for, talvez a questão não seja
“seremos lembrados?”, mas sim “o que queremos que lembrem de nós?”. Porque, no
final do dia, talvez o mais importante não seja ser lembrado por muitos. … mas
fazer com que aqueles que se lembram o façam com carinho.
E tu… tens medo de ser esquecido?



Comentários
Enviar um comentário