O tempo cura tudo?

“Dá tempo ao tempo.”
“Com o tempo, isso passa.”
“Vai ver que o tempo cura tudo.”

  É difícil não ouvir estas frases ao longo da vida, especialmente quando estamos a passar por momentos difíceis. Perdas, separações, deceções, frustrações - todas elas parecem vir acompanhadas desta ideia de que o tempo, por si só, terá a capacidade de apagar a dor. Mas será mesmo assim? Será que o tempo tem mesmo esse poder mágico de curar tudo?

A origem e a intenção da frase

  A ideia de que o tempo cura tudo é antiga - remonta até a expressões como o provérbio latino “tempus omnia sanat” (“o tempo cura tudo”). A sua origem pode não estar documentada com precisão, mas é clara a intenção: consolar, aliviar e acalmar. Em muitos casos, a frase é dita por alguém que não sabe exatamente o que dizer diante da dor do outro. E há até um certo conforto em acreditar que basta esperar para que tudo passe. O problema é quando essa crença se transforma em passividade ou em culpa por ainda doer, mesmo depois de tanto tempo.

Quando o tempo ajuda

  É verdade que, com o tempo, muita coisa se transforma. A intensidade das emoções tende a diminuir, ganhamos distância emocional, a vida vai avançando e, com ela, novas experiências vão-nos mostrando que a dor pode coexistir com outras sensações. Num desgosto amoroso, por exemplo, o primeiro mês parece insuportável. Mas seis meses depois, com sorte, já conseguimos respirar fundo sem que tudo nos lembre a pessoa. O tempo, neste sentido, ajuda a reorganizar internamente o que foi vivido.
  Ele dá espaço para que a memória se acomode e para que o cérebro, aos poucos, deixe de associar tudo ao que nos magoou. A cura começa a acontecer - não porque o tempo tenha feito o trabalho sozinho, mas porque permitimos que ele passasse e que novas camadas de vida se sobrepusessem à dor.

Quando o tempo não chega

  Mas nem sempre o tempo basta. Há dores que se prolongam anos e que, mesmo assim, continuam presentes com a mesma força. Pessoas que não superam uma perda, um trauma, um abuso ou uma injustiça. Não porque estejam presas ao passado por escolha, mas porque o tempo, por si só, não resolve o que não foi enfrentado. A frase “o tempo cura tudo” pode ser, nesses casos, até cruel - como se a pessoa estivesse a falhar por ainda sentir dor.
  A verdade é que há mágoas que se escondem, em vez de serem tratadas. E ao longo do tempo, elas não cicatrizam - apenas se silenciam, até que algo as reative. O tempo pode até agravar feridas mal cuidadas. Pode transformar pequenas dores em grandes pesos, quando não nos permitimos olhar de frente para elas.

O que realmente cura?

  O tempo é uma condição necessária, mas não suficiente. A verdadeira cura vem da forma como vivemos esse tempo. Ela exige ação: refletir, conversar, buscar apoio e permitir-se sentir. Exige responsabilização emocional: perceber que temos de fazer alguma coisa com a dor - nem que seja aceitá-la, processá-la e compreender o que ela quer dizer.
  É isso que distingue a espera passiva da espera transformadora. O tempo pode ser um grande aliado se o usarmos como oportunidade para crescer, para curar, para nos conhecer melhor. Caso contrário, ele apenas passa, como passa um comboio - e a dor fica, na mesma estação.

Porque continuamos a repetir essa frase?

  Talvez porque é mais fácil acreditar nela. Porque ouvir alguém dizer “isso vai passar” dá esperança, mesmo que seja uma esperança ilusória. Porque temos dificuldade em lidar com o sofrimento alheio e em reconhecer a complexidade das emoções. E também porque nos custa admitir que, em muitas situações, a dor não desaparece - apenas se transforma.
  Dizer “o tempo cura tudo” pode até ser uma forma de evitar o confronto com a dor, de adiar a procura por ajuda, ou de culpar o relógio por algo que exige um movimento interno.

Conclusão

  Não, o tempo não cura tudo. Mas cura muita coisa - desde que estejamos disponíveis para isso. A dor pode tornar-se mais leve com o passar dos dias,
mas apenas se escolhermos caminhar com ela, em vez de esperar que o tempo a carregue por nós.
  Por isso, talvez devêssemos reformular a frase. Em vez de “o tempo cura tudo”, talvez seja mais justo e verdadeiro dizer:
“Com o tempo, se quisermos, aprendemos a curar”.

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