O que é o bloqueio criativo?

  Já todos passamos por isto: sentamo-nos prontos para criar - seja para escrever, pintar, compor ou simplesmente ter uma ideia - e… nada. O que antes parecia fluir naturalmente agora está bloqueado, como se uma parede invisível se tivesse erguido entre nós e a nossa criatividade. O bloqueio criativo é frustrante, desmotivador e, muitas vezes, silenciosamente cruel. Mas será que é só isso?
  Hoje, quero falar sobre o que é, de facto, o bloqueio criativo e o que ele nos tenta dizer - porque talvez não seja só um obstáculo, mas também um sinal.

Bloqueios criativos: o que são?

Cientificamente falando

  O bloqueio criativo não é apenas “falta de inspiração”. Do ponto de vista neurológico, muitas vezes é o resultado de uma sobrecarga mental. Quando estamos a lidar com stress, ansiedade ou cansaço acumulado, o cérebro entra num modo de proteção: dá prioridade à sobrevivência, não à criatividade. A criatividade, afinal, exige um certo grau de liberdade mental - um espaço onde a mente pode explorar, combinar ideias e errar.
  Além disso, há fatores como o perfeccionismo e o medo da crítica que ativam o nosso “crítico interno”, aquele sabotador que exige que tudo saia perfeito à primeira tentativa. E quando essa exigência é muito grande, o impulso criativo recua.

Emocionalmente falando

  O bloqueio criativo também tem raízes emocionais. Muitas vezes, é o reflexo de algo dentro de nós que está desalinhado com o que estamos a tentar fazer. Pode ser medo de não corresponder às expectativas, medo de falhar ou, mais subtilmente, a sensação de que o que estamos a criar já não nos representa.
  Por vezes, a criação trava porque o criador mudou - mas o projeto ainda não acompanhou essa mudança.

É tudo mau ou isso diz-nos algo?

  Durante muito tempo, vi o bloqueio criativo como um inimigo. Algo a vencer. Hoje, olho para ele como um mensageiro. Porque na maioria das vezes, ele está a tentar dizer alguma coisa.

Um sintoma, não uma falha

  O bloqueio não é sinal de que somos incapazes. É sinal de que algo precisa de atenção. Pode ser descanso, pode ser reorientação, pode até ser apenas um momento de transição em que ainda não temos palavras para aquilo que sentimos.
  Às vezes, o bloqueio aparece porque estamos a criar algo que não queremos realmente dizer - ou que ainda não estamos prontos para dizer.

A pausa antes do salto

  Há silêncios que não são vazios. São digestões. A criatividade, como tudo na vida, também precisa de pausas. Tal como o corpo precisa de tempo entre refeições, o cérebro criativo precisa de tempo entre criações. É nesses períodos que se reorganiza, que absorve experiências e que se junta peças para mais tarde.
  Muitas vezes, o bloqueio não é uma paragem: é uma incubação.

Um possível redirecionamento

  Já me aconteceu estar bloqueado num projeto e, semanas ou até meses depois, perceber que estava a forçar uma história ou uma ideia que já não fazia sentido. O bloqueio criativo pode ser a forma como o nosso subconsciente nos diz: “Estás a ir por aqui, mas talvez o teu caminho seja por ali.”
  É desconfortável, claro. Faz-nos duvidar de nós mesmos. Mas talvez o desconforto seja a bússola.

Como lidar com o bloqueio criativo?

  Como tudo, não há uma fórmula mágica, mas há práticas que ajudam - e, acima de tudo, há uma mudança de mentalidade que pode fazer a diferença:

  • Desconectar para reconectar: fazer algo diferente, sair de casa, caminhar ou ver um filme. Estimular o cérebro de forma indireta.
  • Criar sem objetivo: escrever sem pensar em leitores, desenhar sem pensar em técnica. Deixar sair, sem filtro.
  • Falar sobre o bloqueio: às vezes, dar-lhe voz é meio caminho andado para o destravar.
  • Aceitar o ciclo: a criatividade não é uma linha reta. É um ciclo, com altos e baixos. Aceitar isso é libertador.

O que aprendemos com o bloqueio

  Se calhar, o maior valor do bloqueio criativo está naquilo que nos obriga a ver: o que evitamos, o que sentimos, o
que desejamos criar mas ainda não sabemos como.
  Já tive bloqueios que me ensinaram mais sobre mim do que sobre o projeto em si. E isso, por mais difícil que seja no momento, é precioso. É nesses momentos que temos a oportunidade de crescer, não apenas como criadores, mas como pessoas.

Conclusão

  O bloqueio criativo pode parecer o fim, mas às vezes é só o intervalo antes de algo novo nascer. É desconfortável, sim. Mas talvez, se o ouvirmos em vez de o combatermos, descubramos que ele não está contra nós - está connosco, a tentar apontar um novo caminho.
  E lembra-te, não é o bloqueio que te define. É a forma como escolhes atravessá-lo.

E tu… já sentiste o desconforto de um bloqueio criativo?

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