Já pensaste na morte como parte da vida?

  Nascemos, vivemos e morremos. Esta é a sequência que conhecemos desde que nos entendemos como seres humanos. Mas há uma tendência geral em olhar apenas para as duas primeiras etapas - como se a terceira não existisse ou, se existe, devesse ser empurrada para debaixo do tapete. A morte é vista como o fim, o apagão, o corte brusco que interrompe tudo. Mas e se não for bem assim? E se a morte for apenas parte da vida, tão natural quanto nascer ou crescer?
  A verdade é que vivemos numa sociedade que tem pavor da morte. Evita-se falar nela, evita-se lidar com ela, evita-se até aceitá-la. É como se ao ignorarmos a sua existência, pudéssemos de alguma forma enganá-la. Desde cedo somos educados a temê-la, como se fosse uma falha do sistema, uma anomalia que vem roubar tudo o que é bom. E mesmo quando a enfrentamos, seja através do luto ou da reflexão, sentimo-nos quase sozinhos, porque a dor ainda é vista como fraqueza e a morte como algo que deve ser superado rapidamente.
  Mas por que evitamos tanto pensar na morte?
Talvez porque ela nos lembra que temos um prazo. Que tudo aquilo que hoje damos como garantido - os nossos dias, os nossos projetos, as nossas pessoas - é passageiro. A cultura da juventude eterna reforça essa negação: cremes antienvelhecimento, filtros que suavizam rugas, cirurgias que tentam congelar o tempo. A própria medicina, em muitos contextos, não procura mais só curar, mas prolongar indefinidamente, como se morrer fosse perder.
  E se, em vez de negarmos, aceitássemos a morte como parte da vida? Será que isso não mudaria completamente a forma como vivemos? Será que não nos forçaria a ser mais intencionais, mais presentes e mais gratos? Aceitar a morte pode parecer assustador, mas pode também ser libertador. Porque lembra-nos que o tempo não volta, que cada escolha importa e que viver é urgente. Tal como a natureza nos ensina com os seus ciclos - tudo nasce, floresce, morre e volta a nascer - também nós fazemos parte de um processo maior do que conseguimos controlar.
  Quando pensamos na morte dos outros, no luto ou na ausência, percebemos ainda mais essa dimensão. A dor de perder alguém é, na verdade, a prova de que aquela pessoa existiu, tocou-nos e marcou-nos. Há algo profundamente humano em sofrer por alguém que partiu. E, no entanto, mesmo esse espaço de dor é muitas vezes apressado ou abafado, como se fosse um incómodo social.
  E quando olhamos para a nossa própria morte? É difícil. Imaginar a própria ausência exige coragem. Mas talvez pensar nela de forma mais consciente nos ajude a viver com mais intenção. Podemos não controlar o fim, mas podemos escolher como vivemos até lá. O tempo que usamos, as conversas que temos, os projetos que começamos ou os abraços que damos.
  No fim, talvez a morte não seja o contrário da vida, mas uma continuação dela - um lembrete constante de que cada momento conta. E talvez, só talvez, viver de verdade só seja possível quando deixamos de fugir daquilo que é inevitável.
  Talvez não devêssemos viver como se a morte fosse uma ameaça, mas como se fosse o lembrete mais honesto de que ainda estamos vivos.

Comentários

Se gostaste deste artigo, talvez gostes de um destes!