Redes sociais: ferramenta ou vício?

  Quantas vezes já abriste o Instagram só porque estavas na fila do supermercado, à espera do autocarro ou sentado na casa de banho? Parece um gesto inofensivo - quase automático - mas talvez diga mais sobre nós do que gostávamos de admitir. As redes sociais foram criadas como ferramentas. Hoje, em muitos casos, funcionam como vício.
  Há uma frase que ouço com frequência: “Eu não sou viciado, só vou ver o que se passa.” Mas esse “ver o que se passa” acontece vezes sem conta ao longo do dia. Qualquer espaço de tédio, silêncio ou espera é imediatamente preenchido com o gesto de desbloquear o telemóvel e abrir uma rede social. A ausência de estímulo tornou-se desconfortável e, por isso, procuramos dopamina a cada toque.
  Depois, há outra desculpa muito comum: “Trabalho com redes sociais.” Acredito. Muitos de nós têm mesmo a parte profissional ligada ao digital. Mas será que as horas passadas a fazer scroll, entre vídeos virais, frases feitas e polémicas da semana, são mesmo trabalho? Ou estamos apenas a convencer-nos disso para aliviar a culpa? Eu próprio podia dizer que vejo vídeos para ter ideias para escrever. Ma
s sei que as melhores ideias surgem quando estou focado, presente ou a viver, e não perdido numa sequência infinita de vídeos sem propósito. Quando quero aprender algo de verdade, vou diretamente a um canal ou formato que sei que me acrescenta. Não me deixo levar por um algoritmo que, apesar de certeiro, não conhece os meus objetivos, apenas os meus hábitos.
  Eu próprio decidi desinstalar o Instagram - e nunca cheguei a ter TikTok - precisamente porque percebi que estava a perder demasiado tempo com conteúdos que não me acrescentavam nada. E o mais curioso é que nem parecia assim tanto tempo. Eram 10 minutos agora, mais 10 na pausa a seguir, depois 20 à noite… quando dava por mim, tinha passado mais de duas horas do dia a consumir coisas inúteis. Vou aprofundar isso num artigo sobre dopamine detox, mas posso desde já dizer que essa decisão mudou a forma como me foco nos meus projetos. Passei a usar o meu tempo com muito mais eficácia. E não, não abdiquei dos meus momentos de descanso - continuo a tê-los, mas agora são momentos conscientes e merecidos, e não apenas fugas inconscientes ao tédio.
  Em suma, existe uma diferença clara entre consumir conteúdos de forma intencional e cair no consumo passivo. Entre usar a tecnologia como ferramenta de crescimento e permitir que ela nos roube tempo, atenção e até autoestima. O problema não são as redes em si - é a forma como as usamos. Se estamos ao comando ou apenas a reagir a estímulos. Se escolhemos ou somos escolhidos.
  Talvez a pergunta não seja se as redes sociais são boas ou más. Talvez a pergunta certa seja: estou a usá-las… ou elas estão a usar-me?

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