Quando foi que o senso comum deixou de ser comum?
Há coisas na vida
que, à partida, deveriam ser simples, intuitivas ou até lógicas. Mas vivemos
num mundo em que é necessário avisar - preto no branco - que “o creme não é
para consumo oral” ou que “é favor manter a porta da garagem fechada”. E o mais
irónico? Mesmo com os avisos, há sempre alguém que ignora. A questão que
fica é: em que momento é que o bom senso deixou de ser… senso comum?
Hoje em dia, as indicações óbvias
tornaram-se parte do mobiliário urbano. Já ninguém estranha ler num produto de
beleza “uso externo apenas”, como se a ideia de comer um hidratante fosse uma
possibilidade real. Mas se essa frase está lá, é porque alguém, em algum lugar,
tentou. Ou pior, talvez até tenha processado a empresa por não ter sido
avisado.
Este fenómeno não se limita a produtos.
Em prédios por todo o país, encontramos cartazes improvisados - quase sempre
numa folha A4 afixada num quadro de cortiça - a dizer “deixar sempre a porta
fechada”, “evitar barulh
o depois das 22h” ou “não estacionar à frente da
garagem”. São mensagens de exaustão. Não estavam lá no início. Foram escritas
por alguém que, depois de muitos episódios frustrantes, perdeu a esperança na
boa convivência silenciosa e sentiu-se forçado a transformar o óbvio em
lembrete.
No meu próprio prédio, esses avisos
tornaram-se quase decorativos - e, infelizmente, necessários. É comum ver
restos de plástico, papéis de bolo ou o mais variado tipo de lixo espalhado nas
áreas comuns, como se o chão fosse um caixote. E, como se isso não bastasse, o
espelho do elevador parece muitas vezes ter sido alvo de comportamentos que
desafiam qualquer explicação racional: marcas de dedos sujos, saliva ou até
vestígios de alguém que decidiu lamber ou cuspir no vidro. Ninguém gosta de
acreditar que vive num ambiente assim, mas a verdade é que, quando as pessoas
não têm autocontrolo ou respeito, os avisos - por mais óbvios que sejam -
tornam-se tristes lembretes da falta de civilidade.
E é aí que nos perguntamos: será que
estamos a viver numa era em que as pessoas não sabem o mínimo? Ou será que
apenas não se importam? Talvez o problema nem seja sempre má intenção, mas
desatenção, egoísmo ou a simples ideia de que “alguém há de resolver/limpar”.
Há também um certo humor trágico nisto
tudo. A sensação de que precisamos constantemente de ser tratados como crianças
para cumprir regras básicas. Que a empatia e o respeito já não bastam - é
preciso que alguém, num cartaz improvisado, nos diga exatamente como nos
comportar. E mesmo assim, muitos não cumprem.
No fundo, o que estas indicações
revelam é uma falta de responsabilidade coletiva. A necessidade de avisar o
óbvio é um reflexo da nossa incapacidade de viver em comunidade sem que alguém
nos diga, passo a passo, o que deve ser feito. E talvez esteja na hora de cada
um se perguntar: quantas placas seriam desnecessárias se todos apenas
fizessem o mínimo?



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