Os filmes têm impacto na nossa perceção de amor?
Desde cedo que
somos expostos a histórias de amor épicas - casais que se conhecem por acaso,
se apaixonam rapidamente, enfrentam obstáculos dramáticos e acabam juntos com
um beijo sob a chuva. Filmes e séries ensinam-nos, de forma subtil, o que é
suposto esperarmos do amor. Mas e se aquilo que achamos que é amor... for
apenas o que o cinema nos ensinou a esperar?
O impacto da ficção na perceção do amor
A verdade é que o
nosso cérebro absorve as narrativas que vê repetidamente. Crescemos a assistir
a relações que seguem quase sempre o mesmo guião: uma paixão intensa, momentos
de sofrimento e um final feliz. Essa repetição constante molda, muitas vezes
sem nos darmos conta, aquilo que acreditamos que o amor "deve" ser.
Criamos scripts amorosos - padrões que repetimos na vida real porque
aprendemos que é assim que o amor acontece.
Amor de filme vs. amor real
O amor no cinema é
grandioso. Vive de momentos intensos, reviravoltas e reconciliações de cortar a
respiração. Já o amor real é construído no quotidiano - nos cafés ao
pequeno-almoço, nas conversas sem assunto e nas decisões partilhadas. Mas
quando estamos habituados ao ritmo emocional das ficções, a vida real pode
parecer… aborrecida. E é aí que começamos a duvidar do que sentimos. Será que
está a faltar “algo”? Ou será apenas a ausência daquele drama cinematográfico
que aprendemos a romantizar?
O lado negro da idealização
Esta perceção destorcida
pode levar à frustração. Ao idealizarmos o amor como algo sempre intenso e
perfeito, tornamo-nos menos tolerantes às imperfeições inevitáveis das relações
reais. E pior: há filmes que romantizam comportamentos tóxicos - como ciúmes
possessivos, manipulações subtis, ou mudanças forçadas “por amor” - fazendo com
que os espectadores normalizem atitudes que, na vida real, deveriam ser red
flags.
Além disso, a ideia do “para sempre”,
tão presente nos finais felizes das histórias, cria uma ilusão de estabilidade
eterna. Já falamos sobre esse conceito noutro artigo, mas vale relembrar: não é
o “para sempre” que valida o amor, mas sim o compromisso e a presença enquanto
dura.
Importa ainda referir que essa
idealização alimentada pelos filmes não se limita à relação enquanto conjunto,
mas estende-se também à ideia do soulmate - da pessoa perfeita que nos
vai completar. Há quem estabeleça uma lista interminável de características que
o “parceiro ideal” deve ter: sensível, mas firme; romântico, mas descontraído;
ambicioso, mas sempre disponível; divertido, mas maduro; emocionalmente aberto,
mas com total estabilidade. Claro que há valores fundamentais que devem mesmo
ser inegociáveis - como o respeito, a empatia e a comunicação - mas o problema
surge quando procuramos alguém com traços quase inumanos, uma junção de
virtudes que provavelmente nem coexistem numa só pessoa. Esta busca por um
ideal irrealista pode levar-nos a rejeitar boas relações com base em falhas
normais, humanas. Às vezes, a nossa alma gémea não é aquela que preenche todos
os requisitos da lista, mas sim aquela que caminha connosco com verdade,
imperfeições e vontade de construir algo real.
Talvez esta procura pelo “parceiro
perfeito” venha também do facto de estarmos habituados a ver personagens
escritas com intenções muito específicas - e eu falo com alguma propriedade,
porque sei o que é escrever um livro. Quando se cria uma personagem, muitas
vezes dá-se a ela determinadas características ou habilidades não porque são
realistas ou equilibradas, mas porque serão úteis em determinado ponto da
narrativa. Um personagem pode ser extremamente intuitivo, não porque pessoas
assim existam em abundância, mas porque esse traço vai desbloquear um
mistério
no final. Pode ser romântico no limite da perfeição, não porque isso represente
o amor real, mas porque a história exige uma cena de redenção ou um grande
gesto. O problema é quando começamos a projetar essas construções ficcionais
para a vida real - como se fosse razoável esperar que alguém tenha sempre a
resposta certa, o momento certo ou o comportamento certo. Quando esquecemos
que, fora do guião, a perfeição não existe - e que amar alguém real é,
inevitavelmente, um exercício de aceitação, não de idealização.
O que há de bom nestas histórias?
Claro que nem tudo
é negativo. Os romances ficcionais também nos inspiram. Ajudam-nos a perceber o
valor da demonstração de afeto, da vulnerabilidade e da dedicação. Existem
filmes que mostram o lado realista e profundo do amor - como Blue Valentine,
Marriage Story ou Before Midnight - e esses são particularmente
importantes porque revelam que amar também é difícil. Também é rotina,
desentendimento, e escolha consciente.
Encontrar o equilíbrio
Assistir a filmes
de romance pode ser positivo, desde que o façamos com espírito crítico. Não
podemos permitir que a ficção seja o nosso único modelo de referência sobre o
que é uma relação saudável. Ver histórias de amor pode aquecer o coração, mas
viver uma história de amor exige muito mais do que cenas bonitas. Exige
paciência, escuta, esforço, e, sobretudo, realismo.
Como complemento, é importante lembrar
que as redes sociais também prolongam esse “efeito filme”. Casais perfeitos em
fotos perfeitamente editadas reforçam a ideia de que, se a nossa relação não
for digna de um feed de Instagram, então há algo de errado com ela. O amor
verdadeiro não é um espetáculo - é algo privado, íntimo e, muitas vezes,
invisível aos olhos dos outros.
No final do dia, talvez o que mais
nos atrasa no amor verdadeiro seja acreditarmos num guião escrito para
terminar, não para durar.



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