A cultura do cancelamento: todos os erros são imperdoáveis?

  Vivemos numa era contraditória. Repetimos, quase como mantra, a importância de sermos autênticos, de mostrarmos quem realmente somos e de partilharmos as nossas vulnerabilidades. Mas assim que alguém erra - e todos erramos - surgem vozes prontas a atacar, condenar e eliminar qualquer vestígio dessa pessoa. A cultura do cancelamento tornou-se a resposta automática da sociedade, e a linha entre justiça e linchamento social tornou-se mais fina do que nunca.
  Mas afinal, o que é, de facto, esta cultura?
  A cultura do cancelamento é um fenómeno social que consiste em expor, criticar publicamente e “apagar” uma pessoa após um erro, comentário ou atitude considerada inaceitável. Isto acontece especialmente nas redes sociais, onde tudo é imediato, permanente e amplificado. Seja um influenciador, uma figura pública ou alguém comum, basta uma publicação, um vídeo ou até uma print mal interpretada para a internet decidir que essa pessoa “já não merece palco”.
  O termo começou a ganhar força entre 2015 e 2017, em movimentos que pretendiam responsabilizar pessoas com comportamentos abusivos, preconceituosos ou ofensivos. Em muitos casos, essa exposição foi necessária para dar voz a vítimas e combater estruturas de poder injustas. No entanto, à medida que o ter
mo se popularizou, perdeu o seu foco inicial. Hoje, já não é preciso que o erro seja grave. Uma opinião impopular, uma piada antiga ou até um desabafo mal formulado podem ser suficientes para alguém ser cancelado. O problema? Não há espaço para contexto, intenção ou crescimento.
  As consequências para quem é cancelado não são apenas digitais. Muitas vezes há perda de contratos, oportunidades de trabalho e uma exclusão social que pode ter um impacto devastador na saúde mental. Ansiedade, depressão, sentimento de perseguição e até isolamento completo. E isto acontece mesmo em situações em que o erro foi pontual ou involuntário.
  Este cenário criou uma consequência silenciosa: o medo constante de errar. Cada vez mais pessoas, especialmente jovens, censuram-se, evitam dar opinião ou falar com naturalidade, com receio de serem mal interpretados. Há uma autocensura constante que não promove a empatia, mas sim o medo. Tornou-se mais seguro ser genérico do que ser verdadeiro.
  Isto leva-nos a um paradoxo: queremos pessoas reais, mas não as deixamos ser humanas. Exigimos autenticidade, mas só até ao ponto em que essa autenticidade coincide com aquilo que achamos correto. E quando não coincide, atacamos. Mas ser real inclui o erro, a ignorância momentânea, a evolução de ideias e comportamentos. Se não permitirmos esse espaço, ninguém vai querer ser real - vão apenas ser cautelosos.
  E isso levanta uma questão essencial: todos os erros são imperdoáveis? Será que devemos tratar da mesma forma alguém que comete um crime grave e alguém que, há anos atrás, fez um comentário imaturo num contexto diferente? Será que o passado define para sempre quem somos? Onde está o espaço para aprender, mudar ou pedir desculpa?
  Responsabilizar alguém não deve significar destruí-lo. Existe uma enorme diferença entre pedir responsabilidade e cancelar. Uma cultura saudável devia ser aquela que reconhece o erro, mas também reconhece o esforço para melhorar. Em vez de só gritarmos “erraste”, talvez devêssemos também perguntar: “o que aprendeste com isto?”
  Afinal, queremos um mundo com menos erros… ou um mundo onde as pessoas aprendem com eles?

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