Vale a pena ter um cão, mesmo sabendo que vamos perdê-lo?

  Viver com um cão é ter uma dose diária de amor, companhia e entrega. É verdade que há contras - já lá vamos -, mas, para mim, poucos gestos são tão reconfortantes como ver o meu cão aproximar-se, sentar-se ao meu lado e olhar-me com aquele ar de “estou aqui, aconteça o que acontecer”. Ou quando eu chego a casa e ele faz uma festa como se eu tivesse desaparecido durante meses. É um tipo de amor que não pede explicação, não exige nada em troca, e não desaparece com o tempo ou com as dificuldades. É um amor que simplesmente… existe.
  A ciência confirma o que os donos de cães já sabem há muito: os cães reduzem o stress, aliviam sintomas de ansiedade e depressão, promovem a libertação de oxitocina (o tal neurotransmissor do amor e da ligação) e até podem ajudar a diminuir a pressão arterial. Mas os estudos, por mais detalhados que sejam, ficam sempre aquém da experiência real de viver com um animal que nos ama incondicionalmente.
  Claro que também há responsabilidades. Ter um cão não é só festas e brincadeiras. É acordar mais cedo para o levar à rua. É abdicar de viagens ou jantares espontâneos porque ele não pode ir. É limpar, cuidar, dar banho, comprar ração
, pagar consultas e estar lá quando ele estiver doente. Ter um cão é comprometer-se. Mas, como quase tudo na vida, quando há amor, o esforço pesa menos.
  No meu caso, tive três experiências muito diferentes com cães. A última foi com o Bailey, um cocker ainda bebé, que esteve comigo apenas umas horas. Ia adotá-lo com os meus pais, mas a decisão acabou por ser revertida no próprio dia. Ainda assim, nessas poucas horas, senti algo que nunca tinha sentido antes - um amor protetor, quase paternal, como se estivesse a cuidar de um bebé. Ele era um pouco maior que as minhas mãos juntas e lembro-me dele como uma das criaturas mais doces que já vi.
  Antes dele, estive um ano com uma cadela cocker que era do meu tio em segundo grau. Quando ele faleceu, todos correram a casa dele para buscar objetos - menos ela. Ninguém quis saber do animal que ele deixou. Foi então que os meus pais decidiram acolhê-la. E embora só tenha estado connosco um ano, foi com ela que senti pela primeira vez a dor de perder um animal de estimação. Dormia comigo e, mesmo em tão pouco tempo, ganhou um lugar imenso no meu coração. A sua morte foi também a minha primeira experiência real com o luto. Uma dor totalmente diferente e maior que qualquer outra que tenha sentido.
  E depois, há o meu primeiro verdadeiro animal de estimação, que está comigo há catorze anos. Praticamente não tenho memórias de uma vida sem ele. E, apesar de tudo o que dá trabalho - passeios, horários, limitações -, não há como negar: ele é a melhor criatura que conheço. A forma como me olha, a maneira como sente quando estou em baixo, o entusiasmo com que me recebe mesmo que eu tenha saído só por cinco minutos… é tudo tão genuíno, tão puro e tão raro. Ele ensinou-me o que é o amor incondicional. E, honestamente, não sei como vou lidar com o dia em que ele não estiver mais aqui.
  Ter um animal de estimação é, no fundo, aceitar que estamos a abrir o coração a algo que, inevitavelmente, um dia vamos perder. Mas também é aceitar que, durante o tempo que cá estiver, vai fazer tudo valer a pena.
  Porque não há nada mais especial do que ser amado por alguém que não fala a nossa língua, mas que nos entende melhor do que muita gente que fala.
  E tu… partilhas deste amor por algum animal de estimação?

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