Vale a pena aconselhar quem não ouve?

  Há algo curioso (e frustrante) em certas amizades: aquele momento em que um amigo te pede um conselho - com seriedade e atenção - mas depois faz exatamente o oposto do que tu disseste. Às vezes, nem tenta adaptar o que ouviu. Simplesmente ignora. A verdade é que isto acontece mais vezes do que devia, e não por maldade. Na maioria dos casos, há mais camadas por trás do que parece à primeira vista.
  Tenho um amigo que é assim. Pergunta, ouve, parece valorizar - mas no fim, toma a decisão contrária, mesmo depois de vários sinais de que talvez devesse fazer diferente. Já me questionei se isso acontece por ele sentir alguma insegurança ao ouvir-me, talvez por ser mais novo ou, aparentemente, ter menos experiência prática em certas áreas. E talvez tenha mesmo - mas quando a experiência vem da observação atenta e da capacidade de analisar padrões, ela não vale menos. Vale diferente. E pode ser igualmente útil.
  Mesmo assim, é fácil deixar que o ego fale mais alto e sentir que estamos a perder tempo ou que não somos levados a sério. Pior ainda: que nos estão a testar ou a provocar. Nessas alturas, eu próprio já caí na tentação da estratégia passivo-agressiva. Coisas como: “Claro, faz o que quiseres”, “Já sabia que ias fazer isso” ou aquele silêncio carregado de julgamento. Mas a verdade é que essa postura não ajuda ningué
m. Só afasta. E, mais importante, acaba por dizer mais sobre nós do que sobre o outro.
Então, o que fazer quando alguém te pede conselhos… e não os segue?
  Separei algumas dicas que também considero importantes para mim:

  1. Aceita que o conselho é uma oferta, não uma obrigação. A decisão final é sempre da outra pessoa. Dar conselhos não nos dá o direito de controlar - apenas de partilhar uma perspetiva.
  2. Pergunta-te se a pessoa realmente queria um conselho… ou só precisava desabafar. Como referi noutro artigo, às vezes, o pedido de opinião é uma forma de procurar validação ou apoio emocional, e não uma solução.
  3. Evita personalizar a rejeição do conselho. Quando alguém decide não seguir aquilo que sugeriste, não é necessariamente um ataque à tua capacidade de pensar ou ajudar. Pode haver medos, hábitos ou feridas internas a guiar aquela escolha.
  4. Sê coerente contigo próprio. Não precisas entrar em jogos emocionais para te fazer ouvir. Mostra que estás disponível, mas que também sabes recuar quando é necessário. A maturidade emocional vê-se mais na forma como reagimos ao que os outros fazem com o que lhes damos.
  5. Relembra o teu valor silenciosamente. Quando o tempo provar que o teu conselho fazia sentido, não precisas dizer “eu avisei”. A lucidez, quando é real, não precisa de provar nada.

  No fundo, há uma arte em aconselhar: saber dizer, saber calar e, principalmente, saber não guardar mágoa quando os conselhos não são seguidos. Se alguém confia em ti o suficiente para partilhar dúvidas, isso já é um gesto de intimidade. E se continua a errar? Talvez precise mais de um abraço do que de uma lição.
  E tu… também tens esta dificuldade?


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