Vale a pena aconselhar quem não ouve?
Há algo curioso (e
frustrante) em certas amizades: aquele momento em que um amigo te pede um
conselho - com seriedade e atenção - mas depois faz exatamente o oposto do que
tu disseste. Às vezes, nem tenta adaptar o que ouviu. Simplesmente ignora. A
verdade é que isto acontece mais vezes do que devia, e não por maldade. Na
maioria dos casos, há mais camadas por trás do que parece à primeira vista.
Tenho um amigo que é assim. Pergunta,
ouve, parece valorizar - mas no fim, toma a decisão contrária, mesmo depois de
vários sinais de que talvez devesse fazer diferente. Já me questionei se isso
acontece por ele sentir alguma insegurança ao ouvir-me, talvez por ser mais
novo ou, aparentemente, ter menos experiência prática em certas áreas. E talvez
tenha mesmo - mas quando a experiência vem da observação atenta e da capacidade
de analisar padrões, ela não vale menos. Vale diferente. E pode ser igualmente
útil.
Mesmo assim, é fácil deixar que o ego
fale mais alto e sentir que estamos a perder tempo ou que não somos levados a
sério. Pior ainda: que nos estão a testar ou a provocar. Nessas alturas, eu
próprio já caí na tentação da estratégia passivo-agressiva. Coisas como:
“Claro, faz o que quiseres”, “Já sabia que ias fazer isso” ou aquele silêncio
carregado de julgamento. Mas a verdade é que essa postura não ajuda ningué
m. Só
afasta. E, mais importante, acaba por dizer mais sobre nós do que sobre o
outro.
Então, o que fazer quando alguém te pede conselhos… e não os segue?
Separei algumas dicas que também considero
importantes para mim:
- Aceita
que o conselho é uma oferta, não uma obrigação.
A decisão final é sempre da outra pessoa. Dar conselhos não nos dá o
direito de controlar - apenas de partilhar uma perspetiva.
- Pergunta-te
se a pessoa realmente queria um conselho… ou só precisava desabafar. Como
referi noutro artigo, às vezes, o pedido de opinião é uma forma de
procurar validação ou apoio emocional, e não uma solução.
- Evita
personalizar a rejeição do conselho. Quando alguém
decide não seguir aquilo que sugeriste, não é necessariamente um ataque à
tua capacidade de pensar ou ajudar. Pode haver medos, hábitos ou feridas
internas a guiar aquela escolha.
- Sê
coerente contigo próprio. Não precisas entrar em
jogos emocionais para te fazer ouvir. Mostra que estás disponível, mas que
também sabes recuar quando é necessário. A maturidade emocional vê-se mais
na forma como reagimos ao que os outros fazem com o que lhes damos.
- Relembra
o teu valor silenciosamente. Quando o tempo provar
que o teu conselho fazia sentido, não precisas dizer “eu avisei”. A
lucidez, quando é real, não precisa de provar nada.
No fundo, há uma
arte em aconselhar: saber dizer, saber calar e, principalmente, saber não
guardar mágoa quando os conselhos não são seguidos. Se alguém confia em ti o
suficiente para partilhar dúvidas, isso já é um gesto de intimidade. E se
continua a errar? Talvez precise mais de um abraço do que de uma lição.
E tu… também tens esta dificuldade?



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