Será que subestimamos o poder de um simples toque?

  O toque humano é o primeiro sentido que desenvolvemos. Antes mesmo de vermos ou falarmos, sentimos. E esse primeiro contacto não é apenas físico, é emocional, hormonal e até vital. Tocarmo-nos é uma forma de comunicação primária, carregada de significado: transmite conforto, empatia, amor ou apoio. Cientificamente, o toque é responsável por libertar oxitocina, conhecida como o “hormona do amor” ou do vínculo. Este neurotransmissor reduz o stress, promove o bem-estar e fortalece as conexões sociais e afetivas. Não é por acaso que um simples abraço pode acalmar, consolar e até mudar o rumo de um dia difícil.
  Mas e quando o toque está ausente? Quando o corpo do outro está longe, e o que resta é apenas a presença digital? A minha experiência em relacionamentos à distância trouxe respostas reais e sentidas a essa pergunta.
  Namoramos duas vezes num espaço de três anos. Na primeira vez, a ausência de toque teve um peso que, na altura, não soubemos prever. Com o tempo, começamos a perceber o que significava não poder dar um beijo num momento feliz, não ter um abraço quando o outro precisava, não poder partilhar um simples passeio de mãos dadas. A dor estava precisamente nessas ausências, nas pequenas coisas que fazem o amor sentir-se real e vivido. Foi esse, então, o grande catalisador do término.
  Na segunda vez que estivemos juntos, tudo começou de novo com um reencontro presencial, numa conversa longa num parque da cidade dela. Houve ali um toque que ficou na memória, mas depois veio novamente a distância. Só que desta vez, a dor foi menor. Talvez porque, com mais maturidade, aprendi a aceitar e valorizar aquilo que tínhamos, mesmo com limitações. Sabia que o “para sempre” nos esperava e, por isso, não doía tanto a falta temporária do toque.
  Curiosamente, o meu terceiro livro - que estou a escrever neste momento - nasceu precisamente com o objetivo de retratar um relacionamento à distância. A ideia era permitir que quem nunca viveu algo assim pudesse compreender não só a ausência física e a falta do toque, mas também as frases duras que se ouvem com frequência: “Se nunca se viram, então não conta”, “Isso não tem futuro”, “São apenas crianças” ou “Não dá para amar alguém que nunca se viu presencialmente.” No entanto, à medida que desenvolvia a história, percebi que um livro focado apenas nisso podia tornar-se monó
tono. Por isso, fiz alguns ajustes que mantêm o tema central, mas acrescentam novas camadas. Acho que vai resultar num bom livro - especialmente para quem aprecia romances cheios de sentimento, mistérios e pequenos enigmas por resolver.
  Por falar em livros, sempre que falo deste assunto, lembro-me sempre de um dos meus livros preferidos: Five Feet Apart (“A distância entre nós” na tradução para português de Portugal). A história é sobre dois adolescentes que se conhecem num hospital, mas que não podem aproximar-se mais do que um metro e meio um do outro por causa das suas doenças. A dor deles é física e emocional, mas é profundamente real para qualquer pessoa que já tenha sentido falta de um simples toque da pessoa amada.
  Há uma frase no livro que ficou gravada em mim:

"Human touch, our first form of communication.
Safety, security, comfort, all in the gentle caress of a finger. Or at the brush of lips on a soft cheek. It connects us when we're happy, bolsters us in times of fear, excites us in times of passion and love. We need that touch from the one we love almost as much as we need air to breathe. But I never understood the importance of touch. His touch. Until I couldn’t have it."

  O toque é mesmo isso: presença. É uma forma de dizer “estou aqui”, sem precisar de palavras. Quando nos é negado, mesmo que por força das circunstâncias, percebemos a falta que faz. E se é verdade que o amor pode resistir à distância, também é verdade que o toque o torna mais forte, mais real… mais humano.
E tu… já sentiste falta daquele abraço que nos tira o peso todo de cima dos ombros?


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