“Quem quer, dá um jeito”?

  Há frases que ouvimos tantas vezes que se tornam quase universais. Esta é uma delas. Aparece em filmes, livros, músicas e até em co
nselhos dados, alegadamente, com as melhores intenções. Mas a verdade é que, por trás da aparente simplicidade, esconde-se uma ideia perigosa - a de que tudo depende apenas da nossa vontade. Como se o querer fosse suficiente. Como se tudo se resumisse à força do sentimento ou à persistência da tentativa.
  A vida, no entanto, não funciona assim. Já escrevi noutros textos sobre a ilusão da meritocracia, essa ideia de que quem se esforça consegue sempre. E nas relações aplica-se da mesma forma: nem sempre querer é o bastante. Nem sempre tentar é suficiente. Existem variáveis maiores do que a nossa vontade - como a distância, o tempo, a maturidade, o contexto e/ou as circunstâncias.
  Na minha experiência, percebi isso de forma bastante clara. Na primeira vez que namorei com a minha ex, nós queríamos muito que desse certo. O sentimento estava lá e a vontade também. Mas estávamos separados por quilómetros. A ausência física era um peso constante, e com o tempo, os momentos em que mais precisávamos um do outro - fosse para dar um abraço num dia mau ou para partilhar uma alegria ao vivo - tornaram-se ausências dolorosas. Não era falta de amor. Era a falta de condições para o amor respirar. E foi aí que percebi que querer, por si só, não chega.
  Frases como “Se quiserem, tudo dá certo” parecem inofensivas, mas na prática colocam uma carga imensa em cima de quem já está a lutar. Como se o falhanço de uma relação - ou de qualquer objetivo - fosse sinal de desinteresse ou desistência. Como se fosse culpa de quem não conseguiu “querer o suficiente”. E não é assim. Às vezes, por mais que se queira, o mundo não permite. Há forças externas, obstáculos e realidades que não conseguimos controlar. E aceitar isso não é fraqueza - é maturidade.
  Este pensamento simplista também desvaloriza a dor de quem tentou com tudo o que tinha. Como se a história só não tivesse resultado por falta de esforço, quando na verdade até pode ter havido demasiado. E isso é injusto.
  Dizer que tudo dá certo quando se quer é ignorar que o amor, tal como outros projetos, precisa de mais do que vontade. Precisa de presença, de tempo e de espaço. Precisa que o caminho seja possível - e não apenas desejado.
  Nem sempre o final feliz vem com o “querer muito”. Às vezes, a coragem está em aceitar que não deu certo, apesar de todo o amor. E isso também é válido. Também é bonito. Também conta.
  Talvez a frase que devêssemos repetir mais vezes fosse: “Às vezes, querer não basta. E tudo bem.”
  E tu… concordas que “Quem quer, dá um jeito”?


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