Podemos mesmo dizer tudo o que pensamos?

  Vivemos numa era em que a liberdade de expressão é cada vez mais valorizada. E isso é positivo - poder dizer o que se pensa é um direito fundamental. Mas essa liberdade traz consigo uma responsabilidade: a de pensar antes de falar, principalmente quando o que se diz pode magoar alguém. Ainda assim, o que vemos muitas vezes é a liberdade de expressão ser usada como escudo para justificar tudo, até mesmo a indelicadeza.
  Um exemplo claro disso é o programa "Big Brother". Mesmo vendo muito pouco, noto que há uma tendência constante: muitos concorrentes, nos vídeos de apresentação, dizem que são “frontais”. Parece que a palavra virou um requisito obrigatório, quase como se, ao dizê-la, tivessem carta branca para dizerem tudo o que lh
es apetece - da forma que lhes apetece. Também se vê muito a expressão “a minha verdade”, como se cada pessoa vivesse numa bolha inquestionável. E, embora seja um facto que temos todos perspetivas diferentes, existe apenas uma verdade - o resto são interpretações.
  Voltando à frontalidade: há uma diferença enorme entre ser direto e ser mal-educado. Mas muita gente parece não saber onde está essa linha. Um exemplo simples? Ser direto seria ver que alguém se esqueceu de limpar o que devia e ir falar com essa pessoa com educação. Ser mal-educado é esperar pelas famosas “cadeiras quentes” para, na frente de toda a gente, dizer que essa pessoa é “porca” ou “nojenta”. E isso não tem nada a ver com frontalidade - tem a ver com falta de respeito.
  Outro problema está na forma como usamos a desculpa do “sou sincero, digo tudo o que penso” como se isso nos livrasse de qualquer responsabilidade. Mas dizer tudo o que se pensa, sem filtrar, não é sinónimo de autenticidade - é falta de empatia. É esquecer que, do outro lado, há alguém que ouve, que sente e que pode ser afetado pelas nossas palavras. E mais: muitas vezes, o que se diz com tanta “frontalidade” é menos sobre o outro e mais sobre a necessidade de aliviar algo em nós.
  A liberdade de expressão é um direito. Mas não pode ser usada como desculpa para a agressividade gratuita. E ser frontal pode ser uma qualidade - quando vem acompanhada de empatia, bom senso e respeito. A verdadeira frontalidade não precisa gritar. Não precisa humilhar. Só precisa ser honesta… e humana.
Então, fica a pergunta:
  Será que dizemos o que pensamos… ou dizemos o que nos alivia, sem pensar no outro?

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