Ouve-se para entender ou para responder?

  Ouvir parece simples. Mas a verdade é que, na maioria das vezes, estamos apenas em silêncio - à espera da nossa vez de falar.
  Este artigo é uma espécie de continuação do anterior, onde refleti sobre o poder das perguntas certas. Lá, falei sobre como certas perguntas têm o poder de abrir portas internas que nem sabíamos que estavam trancadas. Mas, de que serve uma boa pergunta se não estivermos dispostos a ouvir de verdade a resposta? Agora quero explorar esse outro lado: o de ouvir sem filtros, sem pressa e sem planos de resposta imediata.
  É curioso como, muitas vezes, achamos que estamos a ouvir alguém, quando na verdade estamos só a preparar mentalmente o que vamos dizer a seguir. Ou a tentar interpretar o que a pessoa está a dizer de acordo com a nossa própria lente. É como quando duas pessoas estão a discutir, mas na prática dizem quase a mesma coisa - só que com palavras diferentes, sem se ouvirem de verdade. A escuta torna-se uma guerra de versões, e não um espaço de compreensão.
  Ouvir com empatia exige mais do que silêncio: exige presença. Implica abdicar do ego por um momento, deixar de lado o impulso de resolver, de convencer ou de estar certo. Não é fácil. Até porque estamos habituados a ser ouvidos com pressa. E a ouvir com filtros.
  Quem nunca teve uma conversa com alguém q
ue, em vez de te ouvir, aproveitava cada pausa tua para meter a sua história? Tu estás a partilhar algo importante e a outra pessoa responde com um “isso também me aconteceu” - e a conversa deixa de ser sobre ti. Às vezes nem é por mal, é automático. Mas ainda assim, mostra o quanto estamos mais treinados para falar do que para ouvir.
  Há também o desconforto com o silêncio. Muitas pessoas sentem que precisam preencher cada pausa com palavras, como se o silêncio fosse um sinal de que algo correu mal. Mas o silêncio faz parte da escuta. É nele que o outro respira, pensa e organiza-se. É nesse intervalo que, muitas vezes, se sente seguro. Quando bem usado, o silêncio não é ausência - é presença.
  Durante muito tempo, eu era aquele que queria logo consolar, resolver, dizer “vai correr tudo bem”, “isso passa”, “já viste o lado positivo?”. A intenção era boa, mas o resultado nem sempre. Com o tempo, percebi que há momentos em que a melhor coisa a fazer é perguntar: “Queres conforto ou soluções?” Porque nem sempre as pessoas querem ser orientadas - às vezes só querem ser ouvidas. Serem humanas diante de outra humanidade, sem julgamentos nem pressas.
  Ouvir verdadeiramente é um ato de presença. Não é sobre o que se diz no fim, mas sobre como se está durante. Ouvir com o coração pode soar a cliché, mas é exatamente isso: escutar com atenção, intenção e empatia. Estar lá, sem o peso de precisar responder logo, sem o medo do silêncio e sem a pressa de ter razão.
  No fim, ouvir bem é uma das maiores formas de amor que podemos oferecer. Ouvir como quem segura a dor do outro com as mãos, sem apertar e sem largar. Apenas acolher.
  E talvez seja mesmo isso: perguntas poderosas só têm valor quando são acompanhadas de uma escuta verdadeira. Porque não é só sobre o que se pergunta - é sobre quem está disposto a ouvir a resposta até ao fim.
E tu… sabes ouvir sem preparar uma resposta?


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