Qual é o papel dos homens na expressão emocional?

   Na sociedade em que vivemos, a expressão emocional continua a ser, muitas vezes, um campo minado para os homens. Depois de ter falado sobre o tabu que ainda existe em torno de falar sobre sentimentos, senti necessidade de me focar mais neste ponto: o papel dos homens na expressão emocional.
  Cresci a ver o meu pai e o meu avô como figuras que raramente demonstravam emoção. Nunca vi uma lágrima cair - nem em filmes. Em contraste, a minha mãe sempre foi transparente quanto ao que sentia, mesmo que isso significasse chorar à frente de toda a gente. Não é preciso muito para percebermos que, desde cedo, os rapazes são educados a esconder as emoções. Não necessariamente com frases como “os homens não choram”, mas com olhares, exemplos e/ou reações que nos mostram o que é “aceitável” sentir - e o que não é.
  Mesmo quando há um discurso mais moderno sobre a importância da vulnerabilidade, continuamos a ver uma certa dualidade: homens sensíveis são muitas vezes elogiados até ao momento em que essa sensibilidade exige algo de volta. Já ouvi mulheres dizerem que querem um parceiro emocionalmente disponível, mas depois, quando ele chora, é visto como fraco. E o pior é que quem pensa assim costuma ser quem se mostra mais. O impacto disso? É real.
  O impacto de tudo isto é mais profundo do que parece. Quando um homem é ensinado a calar o que sente, não está só a reprimir tristeza ou dor - está a cortar o acesso a uma parte essencial de si. A longo prazo, isso mina a saúde mental, porque aquilo que não é dito não desaparece. Fica dentro. E o que fica dentro, consome.
  Vemos homens que não conseguem explicar porque estão ansiosos, irritados ou tristes. Vemos relações a desmoronar porque não foram capazes de comunicar o que sentem - ou porque nunca lhes ensinaram que podiam. A ideia de que o homem tem de ser o pilar inabalável, o protetor que não quebra, é um fard
o pesado demais para qualquer um carregar sozinho. E ninguém devia ter de carregar sozinho aquilo que sente.
  No meu caso, tive poucos homens na minha vida com quem partilhei conversas profundas. Mas tive um grande amigo que se destacava exatamente por saber expressar os seus pensamentos e emoções. Era das poucas pessoas com quem sentia que podia ter esse tipo de conversa. Curiosamente (ou não), a nossa amizade acabou por falhar por causa da única emoção que ele não conseguiu partilhar: quando teve um problema comigo, não disse nada. E aí percebi como até os mais abertos ainda lutam com o peso do silêncio.
  Talvez por isso eu tente, aos poucos, mostrar mais de mim. Mesmo que nem sempre seja fácil. Já fui visto como mais frio, mas não por não sentir - por nem sempre saber como mostrar. E acho que muitos homens se reveem nisto.
  Porque no fim, tanto aqueles que falam pouco como os que sentem tudo e não sabem onde pôr, sofrem. Um por falta, o outro por excesso. Mas ambos acabam por ficar sozinhos com o que sentem.
  Talvez esteja na hora de começarmos a reescrever o que significa ser homem. De deixarmos de ver sensibilidade como fraqueza e começarmos a vê-la como o que ela realmente é: coragem. Porque é preciso coragem para olhar para dentro, coragem para dizer o que se sente, coragem para admitir que nem sempre se está bem.
  E isto não é só importante para os homens - é importante para todos. Porque quando um homem se permite sentir, comunicar, ser vulnerável, ele torna-se um parceiro melhor, um pai mais presente, um amigo mais real e, acima de tudo, uma versão mais completa de si mesmo.
  Falar sobre emoções não devia ser uma exceção, nem um desafio - devia ser normal. E quanto mais normal for, menos gente vai ter de carregar sozinha aquilo que sente. Porque no fim de contas, todos temos emoções. A única diferença está em quem teve liberdade para aprender a expressá-las… e quem ainda está a tentar.
E tu que és homem… expressas as tuas emoções?

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