Porquê que temos tanto medo da mudança?

   A mudança é uma constante inevitável da vida. Pode ser desejada ou imposta, pequena ou enorme, controlada ou inesperada. Ainda assim, independentemente da forma que toma, a mudança provoca em muitos de nós um sentimento desconfortável. Um aperto no peito. Um “e se…?” paralisante. Mas porquê?
  Cientificamente, o medo da mudança está ligado ao nosso instinto de sobrevivência. O nosso cérebro é programado para procurar padrões e previsibilidade, porque isso garante-nos segurança. Quando algo muda - mesmo que para melhor - entramos numa zona desconhecida, o que ativa o nosso sistema de alarme. A incerteza sobre o que vem a seguir pode fazer com que o cérebro prefira manter-se numa situação menos satisfatória, mas familiar, do que enfrentar o risco do novo.
  Na prática, isto significa que mudanças tão simples como alterar a rotina, mudar de escola, começar um novo curso ou terminar uma relação já nos causam desconforto. Mesmo que saibamos racionalmente que o novo passo é o melhor a tomar, emocionalmente sentimos resistência. É como se uma parte de nós gritasse: “Fica onde estás. Aqui já sabes o que esperar.”
  No meu caso, esse desconforto é quase garantido sempre que algo muda. Não interessa se é uma pequena alteração na rotina ou uma grande decisão de vida. Lembro-me, por exemplo, da altura em que tinha de escolher se mudava de escola ao entrar para o secundário. Podia manter-me onde estava, numa escola com pouca qualidade mas onde conhecia a maioria das pessoas, ou mudar para uma es
cola melhor, mas com a “ameaça” de começar tudo do zero, numa turma onde só conhecia a minha irmã de consideração.
  Foi uma escolha difícil. Lembro-me de estar na cozinha a olhar para a parede às duas da manhã e a pensar qual era a melhor opção. Mas escolhi o caminho mais desconfortável. E hoje, olhando para trás, não consigo imaginar quem eu seria se tivesse tomado outra decisão. Foi aí que comecei a crescer verdadeiramente. Tornei-me mais maduro, fortaleci o meu laço com a minha irmã de consideração e conheci a minha melhor amiga, que ainda hoje faz parte da minha vida. Por causa dessa decisão, posso dizer com quase toda a certeza que este blog nem existiria - e isso diz muito sobre o poder que uma mudança tem, por mais mínima que seja.
  É curioso como muitas vezes só reconhecemos a importância de uma mudança depois de a termos feito. Durante o processo, sentimos medo, ansiedade e vontade de recuar. Mas se soubermos suportar esse desconforto temporário, muitas vezes abrimos portas que nem sabíamos que existiam.
  Por outro lado, evitei muitas pequenas mudanças ao longo da vida. Evitei tentar novas formas de estudar, reorganizar a minha rotina, ou pedir ajuda em certas situações porque isso exigia sair do conhecido. Não me arrependo de nenhuma grande decisão tomada, mas questiono quantas pequenas oportunidades deixei passar apenas para manter a estabilidade do que me era familiar.
  Claro que nem toda a mudança é positiva. Mudar por impulso ou por pressão externa pode levar a arrependimentos. Mas quando a mudança nasce de um desejo interno de crescimento - e mesmo assim sentimos resistência - talvez seja precisamente aí que está uma das chaves para a nossa evolução.
  Por isso, o medo da mudança não é um inimigo a eliminar, mas um sinal a interpretar. Ele mostra que estamos a sair da zona de conforto e que algo novo está a ser construído. E isso pode ser assustador, mas também incrivelmente libertador.
  A mudança incomoda. Tira-nos o chão. Mas às vezes é preciso perder o chão para aprender a voar.
  E tu… tens alguma mudança que estás a adiar por medo?

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