O efeito borboleta é real?

  Há conceitos que nos marcam não apenas pela explicação que lhes é dada, mas pelas vezes que nos fazem olhar para trás e pensar: “E se…?”
  O efeito borboleta é um desses conceitos. Popularizado pela Teoria do Caos, é a ideia de que pequenas mudanças num sistema complexo podem gerar consequências imensas e imprevisíveis. A metáfora nasceu com Edward Lorenz, meteorologista, que sugeriu que o bater de asas de uma borboleta no Brasil poderia originar, semanas depois, um tornado no Texas. Claro que isto não deve ser interpretado literalmente - mas o conceito é claro: tudo está interligado, e pequenas ações podem desencadear grandes transformações.
  É um pensamento que, no início, parece assustador. Afinal, estamos constantemente a tomar decisões, muitas delas sem pensar nas consequências. Mas também pode ser reconfortante. Porque mostra-nos que cada passo que damos, por mais insignificante que pareça, tem um impacto - mesmo que não o vejamos de imediato.
  Costumo pensar nisto muitas vezes. Mas há um momento específico da minha vida em que o efeito borboleta é tão claro e tão marcante, que é impossível não escrever sobre ele: a decisão de mudar de escola ao entrar no secundário.
  Como já mencionei no último artigo, na altura, podia ter escolhido manter-me na mesma escola - uma escola com fraca qualidade de ensino, mas onde conhecia a maioria das pessoas. Ou podia mudar para uma escola melhor, com mais exigência, mas onde apenas conhecia a minha irmã de consideração. Escolhi mudar. E se essa decisão parecia-me, na altura, importante… não imaginava o quanto iria influenciar a minha vida.
  Se tivesse ficado na escola antiga, teria passa
do a segunda quarentena do covid em chamadas com os amigos que lá tinha. Não me teria sentido sozinho, e talvez por isso nunca tivesse entrado numa comunidade online para socializar. E sem essa comunidade, nunca teria conhecido um amigo com quem tive uma forte amizade durante anos - e, mais tarde, nem teria namorado. Esse namoro, aliás, teve um papel fundamental na minha descoberta pela escrita, pois comecei a escrever cartas românticas.
  Mas essa paixão pela escrita não veio apenas daí. Teve também origem num projeto de Filosofia, proposto por um professor que não teria tido se tivesse ficado na escola antiga. Esse professor sugeriu-nos escrever uma narrativa através de uma imagem, e foi aí que eu percebi que gostava de dar vida aos personagens que criava mentalmente. Mal sabia eu que, anos depois, estaria aqui a escrever este blog.
  Se tivesse mantido a escolha mais “confortável”, talvez também me tivesse afastado da minha irmã de consideração. Mas por ter mudado, essa ligação fortaleceu-se, e hoje ela é um dos meus maiores pilares. Foi ela quem me deu a conhecer o gosto pelo xadrez. Foi ela quem esteve lá nas fases difíceis. E foi ela quem me ajudou a crescer.
  A decisão de mudar de escola também me fez conhecer a minha melhor amiga - que, por sua vez, despertou o meu gosto pela leitura. E foi a exigência da nova escola que me preparou melhor para o curso que vou tirar. Provavelmente, se tivesse ficado onde estava, teria tido notas mais altas… mas à custa de uma preparação fraca, que me teria dificultado ainda mais a entrada no mundo académico.
  Tudo isto porque, um dia, decidi mudar de escola.
  É fascinante pensar que algo que podia ter parecido uma simples escolha entre duas escolas se tornou a base de tantas transformações. Porque foi exatamente isso: a diferença entre continuar a ser uma criança imatura e tornar-me um adulto cada vez mais perto da sua melhor versão.
  O efeito borboleta ensina-nos a valorizar as pequenas decisões, a escutar o instinto mesmo quando há medo, e a compreender que cada escolha que fazemos - por mais simples que pareça - tem o poder de mudar tudo.
  E tu… também tiveste uma pequena decisão a influenciar algo muito maior na tua vida?

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