Qual é a influência da vergonha nas nossas decisões?

   É curioso pensar como um sentimento tão silencioso pode ter tanto peso nas nossas escolhas. A vergonha, apesar de discreta, molda mais decisões do que gostaríamos de admitir. É ela que, muitas vezes, nos trava antes mesmo de começarmos. Que nos impede de pedir aquilo que precisamos, de sermos quem realmente somos, de arriscar num momento simples, mas que podia ter mudado alguma coisa.
  Já falei aqui sobre a vergonha de pedir ajuda, mas hoje quero alargar o tema. Porque a vergonha não se manifesta só nos momentos difíceis. Às vezes, ela aparece em situações simples, banais até - como apertar o cordão na rua e sentir que estamos a ser observados, como pedir para trocar um prato que não foi aquilo que pedimos num restaurante ou como ir falar com aquela pessoa bonita com quem trocamos olhares. E noutras, com consequências mais profundas: não apresentar uma ideia por medo de ser mal recebida, não responder a uma pergunta numa aula com receio de errar ou não pedir uma oportunidade por pensar que não somos suficientes.
  Sim, já me aconteceu. Trocar olhares com alguém e não fazer nada. Sentir que podia ter iniciado uma conversa, mas não o fazer. Não por falta de vontade, mas porque a vergonha foi mais alta. Outras vezes, em contexto de sala de aula, saber a resposta a uma pergunta, mas evitar levantar a mão. Porque se estiver errada, vou ficar envergonhado. Porque os outros vão olhar. Porque, naquele momento, a possibilidade de falhar é mais assustadora do que a certeza de ficar calado.


  A vergonha tem esse poder: o de nos manter confortáveis, mas limitados. Ela protege-nos de julgamentos, mas também nos impede de viver. E é curioso perceber que muitas vezes nem é tanto o medo do julgamento dos outros, mas o nosso próprio julgamento. A nossa insegurança, a falta de confiança e/ou a constante análise de como vamos ser vistos. E isso é especialmente verdade quando a nossa autoestima já tem as suas fragilidades.
  No meu caso, sei que a vergonha que sinto está muitas vezes relacionada com a minha autocrítica. Se eu tivesse plena confiança no que sei, no que valho ou no que estou a fazer, talvez a vergonha não surgisse. Mas quando a autoestima oscila, a vergonha encontra brechas por onde se infiltrar. E o pior é que, no final, ficamos sempre com aquela sensação de “e se?”. E se eu tivesse ido falar com ela? E se eu tivesse respondido? E se tivesse pedido aquilo que queria? São perguntas que ficam no ar e que vão acumulando pequenos arrependimentos ao longo do tempo.
  Ainda assim, não acho que a vergonha seja um inimigo. Acho que, como todas as emoções, ela tem o seu papel. Pode impedir-nos de sermos imprudentes, de agir por impulso ou de magoar alguém sem pensar. Mas como tudo na vida, precisa de equilíbrio. Quando nos paralisa, quando nos faz perder oportunidades ou quando se torna mais frequente do que a coragem, é aí que se torna um problema.
  Felizmente, acredito que dá para trabalhar isto. A vergonha pode não desaparecer por completo, mas pode ser educada. E é isso que tenho tentado fazer. Identificar os momentos em que ela aparece, perceber de onde vem e decidir se vale a pena deixá-la vencer. Porque às vezes, vale a pena mesmo arriscar o desconforto. Vale mais a tentativa com vergonha do que o arrependimento em silêncio.
  No fim de contas, o papel da vergonha nas nossas decisões não precisa de ser o papel principal. Podemos deixá-la como figurante - alguém que está ali, sim, mas que não tem fala nem poder de decisão. E cada vez que a ultrapassamos, por mais pequena que seja a situação, é uma vitória que se soma. Uma pequena prova de que estamos a crescer. E que, aos poucos, a vergonha vai deixando de ter a última palavra.
E tu… também sentes que a vergonha atrapalha em diversas circunstâncias?

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