Porquê que temos vergonha de pedir ajuda?
Eu sou o tipo de pessoa que só pede
ajuda quando já explorou todos os caminhos imagináveis. Só depois de ter
tentado todas as ideias abstratas, soluções improvisadas e até aquelas que
desafiam a lógica, é que me permito recorrer a outra pessoa. Mesmo assim,
sinto-me desconfortável. Não com todos, é verdade. Tenho uma amiga próxima a
quem consigo desabafar com alguma facilidade. Peço desculpa no final, como quem
reconhece que talvez não devesse ter sido tão vulnerável. Mas peço. Agora,
pedir ajuda prática - como dinheiro aos meus pais ou favores simples - já me
bloqueia. Há uma vergonha quase irracional, difícil de identificar, mas muito
presente.
E essa vergonha… será assim tão rara?
Nada disso. Na verdade, é muito comum. Vivemos numa sociedade que valoriza a
independência como sinal de força e maturidade. Desde pequenos, aprendemos que
ser autónomo é admirável, enquanto depender de alguém pode ser interpretado
como fraqueza. Como se o facto de precisarmos de alguém dissesse algo de errado
sobre quem somos. Como se falássemos demasiado alto e toda a gente percebesse
que não conseguimos fazer tudo sozinhos.
Além disso, o receio de incomodar é
real. Muitas vezes, nem é por orgulho, mas por empatia. Pensamos: “Essa pessoa
já tem tanto com que se preocupar, não quero ser mais um peso.” Esse
pensamento, por mais generoso que possa parecer, ignora uma verdade simples:
todos, sem exceção, precisamos uns dos outros. Ajudar faz parte das relações
humanas. E, às vezes, privamos os outros da oportunidade de estarem presentes
para nós.
Também já me aconteceu perder tempo em
situ
ações que podiam ter sido resolvidas em minutos, se simplesmente tivesse pedido ajuda. Coisas relacionadas com tecnologia, por exemplo, que o meu pai resolveria rapidamente. Mas o orgulho - ou talvez a teimosia - falou mais alto. No fim, o que restou foi frustração por não ter tido coragem de admitir que não sabia.
Há também um lado curioso nisto tudo: muitas vezes, as pessoas a quem mais confiamos - e que nunca nos negariam nada - são aquelas a quem menos pedimos ajuda. Tenho essa sensação com a minha irmã de consideração. Sei que racionalmente não haveria qualquer problema, que ela até gostaria de me ajudar. E mesmo assim, há bloqueios invisíveis que nos impedem.
Esta vergonha de pedir ajuda também tem raízes mais profundas. Pode estar ligada à nossa autoestima, às nossas experiências passadas, ou até ao medo de rejeição. Às vezes, fomos ensinados - direta ou indiretamente - que deveríamos dar conta de tudo sozinhos. Outras vezes, quando pedimos, fomos ignorados ou criticados. E isso marca.
Mas talvez esteja na hora de desconstruirmos a ideia de que pedir ajuda é sinónimo de fraqueza. Pelo contrário: é preciso coragem para admitir que não conseguimos tudo sozinhos. É um ato de humildade, sim, mas também de maturidade emocional. Reconhecer os próprios limites não diminui ninguém - pelo contrário, torna-nos mais humanos e mais conectados com os outros.
Se há algo que aprendi com o tempo é que os verdadeiros laços se fortalecem quando partilhamos não só as vitórias, mas também as dificuldades. E pedir ajuda pode ser o início de uma dessas partilhas.
“Desistir não é um sinal de fraqueza, é ter a força de aceitar que não consegues.” ~ Unknown



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