A constante busca por evolução é saudável?

   Como já referi em alguns artigos, vivemos numa sociedade que nos empurra para a superação constante. "Sê a tua melhor versão", "Nunca pares de evoluir", "Vai atrás dos teus objetivos" - são frases que vemos espalhadas por redes sociais, livros, vídeos motivacionais e até conversas casuais. E sim, há algo inspirador nessa ideia de querer melhorar. A evolução pessoal pode ser uma ferramenta poderosa
de transformação. No entanto, surge uma pergunta inevitável:
será esta busca constante por evolução saudável? Ou será que, sem nos darmos conta, estamos apenas a reforçar a ideia de que nunca somos suficientes?

  É precisamente essa reflexão que me levou a escrever este artigo. Ao longo dos textos que partilho no blog, tenho mostrado como procuro evoluir como pessoa, em várias áreas da minha vida. Tento identificar os meus pontos fracos, reconhecer os padrões que me limitam e aplicar estratégias que me ajudem a crescer. Gosto de partilhar essas ideias com os outros, com a esperança de que também lhes possam ser úteis. Mas, enquanto escrevia, algo me fez parar: se estou sempre a tentar melhorar, será que alguma vez me sentirei completo? Será que não estou, sem perceber, a alimentar a sensação de que ainda não sou "bom o suficiente"?

O lado saudável da evolução

  Vamos começar por aquilo que há de positivo nesta vontade de crescer. Procurar evoluir pode ser uma forma de nos mantermos curiosos, motivados e comprometidos com o nosso desenvolvimento. Pode representar amor-próprio - o reconhecimento de que merecemos mais e de que somos capazes de mais. Aprender, experimentar coisas novas, corrigir erros, enfrentar medos: tudo isso nos torna mais conscientes de quem somos e mais preparados para lidar com a vida.
  Além disso, o desejo de evoluir também pode nascer da compaixão: queremos ser melhores para nós e para os outros. Queremos amar melhor, comunicar melhor e viver com mais propósito.

Quando a busca deixa de ser saudável

  Mas há uma linha ténue entre querer evoluir e nunca se sentir suficiente. E é aqui que as coisas começam a complicar-se.
  Por vezes, usamos o "quero ser melhor" como disfarce para o "não sou suficiente". O problema não está na evolução em si, mas no ponto de partida: se procuramos crescer a partir de um lugar de falta, de rejeição interna, de comparação constante com os outros, então estamos apenas a perpetuar um ciclo de insatisfação. Tornamo-nos reféns de uma ideia inalcançável de perfeição.
  A verdade é que, se estivermos sempre focados no próximo objetivo, no próximo defeito a corrigir, no próximo passo da escada, é fácil perdermos a capacidade de apreciar quem somos hoje. De celebrar as pequenas conquistas. De reconhecer que já percorremos um caminho significativo. E, mais grave ainda, podemos começar a acreditar que só seremos dignos de felicidade quando atingirmos certo nível de evolução - que, inevitavelmente, vai mudando, à medida que nos aproximamos dele.

O impacto emocional dessa busca

  Este ciclo afeta profundamente a forma como nos vemos. Podemos ficar com a autoestima presa ao que ainda não conseguimos, em vez de sustentada pelo que já somos. E, ironicamente, quanto mais sentimos que temos de melhorar, mais longe parece estar a tal felicidade.
  É claro que, em muitos casos, esta mentalidade está também ligada a fatores externos - como inseguranças antigas, falta de validação, padrões familiares ou momentos menos positivos da vida. No meu caso, por exemplo, sinto que a dificuldade em estar verdadeiramente feliz com quem sou neste momento se deve a vários fatores que, neste ponto da minha vida, não me são favoráveis. Então, acredito que, se atingir os meus objetivos evolutivos, posso estar mais próximo dessa felicidade. Mas isso levanta outra questão: se estou sempre a querer mais, será que algum dia me vou permitir sentir-me feliz com o que tenho?

A resposta está no equilíbrio

  Talvez a chave esteja em mudar a forma como nos relacionamos com a evolução. Em vez de a vermos como uma corrida, talvez possamos encará-la como uma caminhada. Uma caminhada onde, sim, procuramos crescer, mas sem esquecer de apreciar a vista. Onde reconhecemos que somos imperfeitos e, ainda assim, suficientes. Onde entendemos que querer evoluir não precisa de nascer da rejeição, mas do amor.
  E se, em vez de esperarmos atingir o “ideal” para sermos felizes, começássemos a aprender a gostar de nós como somos - mesmo enquanto ainda caminhamos?

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