Quais as origens das inseguranças?

   Este artigo é uma continuação direta da reflexão anterior sobre o impacto invisível da infância. Se lá explorei como certos traumas moldam a nossa personalidade sem darmos por isso, aqui quero focar-me numa outra faceta do passado: a forma como certas experiências, por mais pequenas que pareçam, se podem enraizar nas nossas inseguranças, afetando a forma como nos vemos e nos relacionamos com os outros.
  O tema surgiu-me por causa de um episódio específico que, curiosamente, aconteceu quando eu tinha apenas onze anos. Tinha, na altura, uma 'namorada'. Estávamos atrás do pavilhão da escola - o clássico ponto de encontro dos pequenos casais da altura - e, depois de um beijo, ela elogiou-me. Não me lembro exatamente do que disse, só que foi um elogio... mas seguido de um comentário que ficou comigo até hoje.
Ela começou a falar do “ex” dela - que por acaso era meu amigo e colega de turma - e disse que nunca o tinha beijado, porque preferia fazê-lo comigo. E a razão? Porque eu tinha os dentes mais bonitos.
  Na altura, o que deveria ter sido um elogio tornou-se rapidamente numa possível semente da minha insegurança. O meu amigo tinha uma condição genética que afetava os dentes e a voz. O que mais me incomodou não só foi o facto de ele ser meu amigo, mas a forma como ela falou com desprezo, como se a aparência dele f
osse algo que a repugnava. Não lhe contei nada, porque percebia que já devia carregar bastante por ser diferente, e ouvir aquilo de alguém que tinha estado com ele só tornaria tudo pior.
  A ironia é que eu também tinha dentes tortos. Não tão visivelmente quanto ele, mas mais do que era o “padrão” de todos que usaram aparelho. E mesmo que isso nunca tivesse sido um problema para mim até ali – a verdade é que eu evitava fotos, mas isso também fazia parte da minha personalidade na altura –, com o tempo, essa insegurança cresceu. Comecei a tirar mais fotos, mas nunca a sorrir com os dentes. Anos depois, apercebi-me de que essa pequena experiência pode ter deixado uma marca maior do que pensava. Usei aparelho durante alguns anos e hoje os meus dentes são uma das coisas de que mais gosto na minha aparência. No entanto, ainda não sei sorrir a mostrá-los. Não porque estejam feios, mas porque escondi o sorriso durante tantos anos que se tornou um reflexo.
  Tudo isto leva-me a uma questão que ainda hoje me intriga: as nossas inseguranças nascem connosco ou são plantadas pelos outros? Ou será que vêm do que achamos que os outros pensam de nós?
  É fácil pensarmos que os nossos medos e dúvidas vêm de dentro. Mas será que vêm mesmo? Ou será que, tal como eu, fomos ouvindo certos comentários ao longo da vida que, mesmo sem intenção, se foram colando à pele?
  Talvez nunca venhamos a saber com total certeza onde começou cada insegurança. Mas vale a pena refletir sobre elas. Questionar. Entender que muitas vezes a origem da nossa baixa autoestima está mais nas experiências do que na lógica. E talvez, ao reconhecer isso, consigamos dar um passo em direção a um eu mais livre, mais consciente… e mais nosso.
E tu… tens alguma insegurança? E porquê que isso te incomoda?

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