O quanto o passado nos molda?
Há traumas que
carregamos e nem sabemos. Crescemos a pensar que certas memórias ficaram lá
atrás, arrumadas numa gaveta que só se abre se for mesmo necessário. Que o
tempo tratou de resolver tudo, ou que, simplesmente, já não dói. Mas será mesmo
assim?
Pensei nisto pela primeira vez numa das
poucas sessões que tive com uma psicóloga, na escola secundária. Como era de
esperar, ela começou por querer conhecer um pouco do meu passado. Falamos da
minha infância, da família, e em algum momento chegamos ao tema da minha mãe
biológica. Respondi com naturalidade, talvez até com algum distanciamento:
"Não é algo que me afete." Já me afetou, claro. Mas aprendi a deixar
isso para trás e a focar-me na vida que tenho agora,
com quem realmente esteve
presente.
Mais tarde, nessa mesma conversa, a
psicóloga perguntou-me se eu achava que essa situação – a violência, o
abandono, a ausência, ou mesmo a forma como fui crescendo com essa realidade -
não tinha qualquer impacto na minha vida atual. E essa pergunta ficou a ecoar.
Afeta-me? De que forma? E se sim, porquê que nunca pensei nisso?
Os meus pais costumam dizer que, em
pequeno, eu era uma criança cheia de energia, que falava pelos cotovelos e só
me calava quando me pediam. Hoje, sou o completo oposto. Reservado, calado,
introspetivo e com um blog. O que aconteceu entre uma coisa e outra? Terá sido
apenas o crescer? Ou foi o reflexo de experiências que, mesmo que não me lembre
com clareza, me moldaram de forma silenciosa?
É estranho pensar que podemos carregar
traumas sem saber. Que certos medos, inseguranças ou até formas de estar na
vida não são "nossos", mas sim heranças invisíveis do que já vivemos -
ou do que nos faltou viver. Há quem diga que o passado só tem o peso que lhe
damos, mas eu começo a achar que o passado tem formas muito subtis de se fazer
presente, mesmo quando achamos que o deixámos para trás.
E então surge a questão: como podemos
distinguir o que faz parte de nós do que nos foi imposto pela vida? Será que
algumas partes da nossa personalidade são, afinal, apenas mecanismos de defesa?
O silêncio que adotámos, a timidez que cultivamos, a desconfiança que nos
protege - são traços nossos ou cicatrizes que disfarçamos bem?
Fico a pensar nisto. Não tenho
respostas, mas acho que vale a pena fazer estas perguntas. Porque às vezes,
entender o que somos passa por revisitar o que fomos - e isso, por mais difícil
que seja, pode ser o primeiro passo para vivermos com mais consciência do que
nos habita.



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