Independência emocional: quando é que começamos a depender dos outros?
Durante grande
parte da minha infância e adolescência, eu era uma pessoa perfeitamente
confortável na minha própria companhia. Os verões eram passados praticamente
sozinho. Alguns anos, a minha mãe, por estar doente, ficava em casa com o meu
irmão e comigo, mas, na maioria das vezes, eu estava por minha conta. Os meus
pais saíam cedo para trabalhar e só regressavam ao final do dia, por isso eu
passava várias horas sozinho em casa. Mesmo assim, nunca me senti infeliz.
Jogava no telemóvel, via episódios repetidos de Gravity Falls na
televisão, e não sentia qualquer necessidade de interagir com os meus amigos. A
verdade é que eu tinha uma excelente relação com eles durante o tempo escolar,
mas quando as aulas acabavam, não me custava nada estar sem falar com ninguém
durante meses.
Essa independência parecia-me natural. Eu não precisava de ninguém para me entreter, para me sentir bem ou para validar quem eu era. No entanto, tudo mudou em 2021. Nessa altura, estávamos a viver o segundo confinamento, e como eu tinha mudado de turma, não tinha ainda criado laços fortes com os meus novos colegas. Foi então que comecei a falar com pessoas de uma comunidade portuguesa de um jogo online que eu costumava jogar. Usávamos o Discord e, aos poucos, fui conhecendo várias pessoas. Com algumas não me identifiquei, mas houve um pequeno grupo com quem criei uma ligação real - pessoas com quem ainda falo hoje e que considero verdadeiramente meus amigos. Entre elas, estava uma rapariga com quem acabei por namorar.
Essa fase marcou uma mudança muito significativa na minha relação com os outros e, especialmente, na forma como me ligava emocionalmente. Passei a estar em chamadas ou em conversa praticamente o dia inteiro. Partilhávamos tudo: jogos, desabafos, rotinas. Criei hábitos novos, rotinas novas, e sem perceber, comecei a depender daquele contacto constante. Já não era apenas sobre estar acompanhado - era sobre precisar de estar acompanhado.
O tempo passou, a relação terminou, e, apesar disso, a sensação de dependência emocional manteve-se. Já vai fazer um ano e meio desde que tudo acabou e, mesmo sabendo que ela já não tem um papel direto na minha vida, não consigo senti-la totalmente irrelevante. Ainda mais curioso é o impacto que isso teve noutras áreas. Sempre que recebo uma mensagem, de quem for, sinto uma necessidade quase automática de ir ver e responder, mesmo que esteja envolvido em projetos que me apaixonam - seja a escrita dos meus livros, o blog ou outros objetivos pessoais. A prioridade, quase sem pensar, passa a ser a resposta.
E então pergunto-me: o que é que mudou em mim? Como é que passei de alguém que vivia feliz consigo próprio e não sentia necessidade de comunicar durante meses, para alguém que sente um impulso tão forte de estar ligado aos outros?
Acredito que a resposta esteja na forma como criamos hábitos emocionais. Em 2021, a minha vida social transformou-se. A
convivência digital substituiu a distância emocional, e o que antes era um “gosto de estar sozinho” passou a ser “não sei estar sozinho da mesma forma”. A dependência instalou-se de forma subtil, não por fraqueza, mas por rotina. E, como qualquer rotina, custa a ser quebrada.
Ainda assim, não creio que depender de alguém seja, à partida, algo negativo. Criar laços profundos, confiar, partilhar momentos e emoções é uma parte fundamental da vida. O problema surge quando essa dependência começa a condicionar a nossa liberdade, a moldar as nossas ações e a definir o nosso bem-estar. Quando deixamos de conseguir estar connosco sem sentir um vazio, aí sim, é sinal de que algo precisa de ser reajustado.
O mesmo se aplica ao luto de uma relação. Já me perguntei: quanto tempo é demasiado tempo para ultrapassar alguém? E descobri que a verdade é que o luto não se mede em dias, semanas ou meses. Cada pessoa vive-o à sua maneira. E, muitas vezes, o que sentimos não é saudade da pessoa em si, mas da presença, da companhia e do lugar emocional que ela ocupava. Acabamos por confundir o sentimento com o hábito.
Hoje, não sou a mesma pessoa que passava verões inteiros sem sentir falta de ninguém, mas também não sou apenas alguém dependente das mensagens que recebe. Estou num processo - de reconstrução, de reaprendizagem e de reencontro comigo mesmo. Tento recuperar a leveza de estar só, sem que isso signifique solidão. Tento voltar a ver os projetos como prioridade, sem sentir culpa por não responder logo a tudo.
Talvez a verdadeira independência emocional esteja precisamente aí: não em cortar os laços, mas em saber que a nossa estabilidade não depende do tempo de resposta de alguém. Em perceber que é possível amar, partilhar e depender em certos momentos - sem perder o nosso centro.
E tu, já te sentiste assim? Já te viste a depender emocionalmente de alguém sem perceber quando começou?
Essa independência parecia-me natural. Eu não precisava de ninguém para me entreter, para me sentir bem ou para validar quem eu era. No entanto, tudo mudou em 2021. Nessa altura, estávamos a viver o segundo confinamento, e como eu tinha mudado de turma, não tinha ainda criado laços fortes com os meus novos colegas. Foi então que comecei a falar com pessoas de uma comunidade portuguesa de um jogo online que eu costumava jogar. Usávamos o Discord e, aos poucos, fui conhecendo várias pessoas. Com algumas não me identifiquei, mas houve um pequeno grupo com quem criei uma ligação real - pessoas com quem ainda falo hoje e que considero verdadeiramente meus amigos. Entre elas, estava uma rapariga com quem acabei por namorar.
Essa fase marcou uma mudança muito significativa na minha relação com os outros e, especialmente, na forma como me ligava emocionalmente. Passei a estar em chamadas ou em conversa praticamente o dia inteiro. Partilhávamos tudo: jogos, desabafos, rotinas. Criei hábitos novos, rotinas novas, e sem perceber, comecei a depender daquele contacto constante. Já não era apenas sobre estar acompanhado - era sobre precisar de estar acompanhado.
O tempo passou, a relação terminou, e, apesar disso, a sensação de dependência emocional manteve-se. Já vai fazer um ano e meio desde que tudo acabou e, mesmo sabendo que ela já não tem um papel direto na minha vida, não consigo senti-la totalmente irrelevante. Ainda mais curioso é o impacto que isso teve noutras áreas. Sempre que recebo uma mensagem, de quem for, sinto uma necessidade quase automática de ir ver e responder, mesmo que esteja envolvido em projetos que me apaixonam - seja a escrita dos meus livros, o blog ou outros objetivos pessoais. A prioridade, quase sem pensar, passa a ser a resposta.
E então pergunto-me: o que é que mudou em mim? Como é que passei de alguém que vivia feliz consigo próprio e não sentia necessidade de comunicar durante meses, para alguém que sente um impulso tão forte de estar ligado aos outros?
Acredito que a resposta esteja na forma como criamos hábitos emocionais. Em 2021, a minha vida social transformou-se. A
convivência digital substituiu a distância emocional, e o que antes era um “gosto de estar sozinho” passou a ser “não sei estar sozinho da mesma forma”. A dependência instalou-se de forma subtil, não por fraqueza, mas por rotina. E, como qualquer rotina, custa a ser quebrada.
Ainda assim, não creio que depender de alguém seja, à partida, algo negativo. Criar laços profundos, confiar, partilhar momentos e emoções é uma parte fundamental da vida. O problema surge quando essa dependência começa a condicionar a nossa liberdade, a moldar as nossas ações e a definir o nosso bem-estar. Quando deixamos de conseguir estar connosco sem sentir um vazio, aí sim, é sinal de que algo precisa de ser reajustado.
O mesmo se aplica ao luto de uma relação. Já me perguntei: quanto tempo é demasiado tempo para ultrapassar alguém? E descobri que a verdade é que o luto não se mede em dias, semanas ou meses. Cada pessoa vive-o à sua maneira. E, muitas vezes, o que sentimos não é saudade da pessoa em si, mas da presença, da companhia e do lugar emocional que ela ocupava. Acabamos por confundir o sentimento com o hábito.
Hoje, não sou a mesma pessoa que passava verões inteiros sem sentir falta de ninguém, mas também não sou apenas alguém dependente das mensagens que recebe. Estou num processo - de reconstrução, de reaprendizagem e de reencontro comigo mesmo. Tento recuperar a leveza de estar só, sem que isso signifique solidão. Tento voltar a ver os projetos como prioridade, sem sentir culpa por não responder logo a tudo.
Talvez a verdadeira independência emocional esteja precisamente aí: não em cortar os laços, mas em saber que a nossa estabilidade não depende do tempo de resposta de alguém. Em perceber que é possível amar, partilhar e depender em certos momentos - sem perder o nosso centro.
E tu, já te sentiste assim? Já te viste a depender emocionalmente de alguém sem perceber quando começou?



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