E se nunca formos “incríveis” em nada?
Desde pequeno que fui o filho
certinho. Comportado, com notas entre os 70 e os 90%. Nunca fui um génio, mas
também nunca estive no grupo dos que “dão trabalho”. E talvez tenha sido
exatamente por isso que se criaram expectativas em relação a mim. Não me lembro
de ninguém me dizer que esperava
que eu fosse o melhor, mas as minhas notas criaram essa ideia: “se ele consegue tirar boas notas sem se esforçar tanto, imagina se se aplicasse mesmo a sério”.
A verdade é que, quando cheguei ao
secundário, fui para um dos cursos mais difíceis, o de ciências e tecnologia, e
só a meio é que percebi que aquilo não fazia sentido nenhum para mim. O que eu
queria mesmo era escrever livros, não estudar moléculas nem processos
celulares. Ainda assim, continuei, como se fosse possível viver a vida toda a
seguir um caminho que nos sufoca, só para corresponder às expectativas de
alguém.que eu fosse o melhor, mas as minhas notas criaram essa ideia: “se ele consegue tirar boas notas sem se esforçar tanto, imagina se se aplicasse mesmo a sério”.
Quando chegou a altura do acesso ao ensino superior, percebi que as minhas notas, apesar de razoáveis, não eram suficientes para entrar numa universidade com média alta. E não porque eu fosse menos capaz, mas porque estava a concorrer com pessoas que tinham escolhido exames de acesso mais simples - o que, obviamente, faz todo o sentido. Só que isso não impediu o sentimento de falhanço. Senti que tinha desiludido os meus pais, principalmente o meu pai, que sempre sonhou que eu seguisse o ramo da biologia ou da química. E eu não segui. E, apesar de saber que o que escolhi me faz muito mais sentido, carrego esse medo: e se tudo isto for em vão?
E se, no final, todos os meus projetos - os livros, o blog, as ideias - forem só isso: ideias? E se eu tiver rejeitado a segurança de uma “carreira estável” para correr atrás de algo que nunca vai acontecer? Será que era melhor ter feito como tantos: escolher algo seguro, mesmo sem gosto, só para garantir um lugar no mundo?
É aí que entra o medo de ser medíocre. O medo de não ser “incrível” em nada. De não me destacar, de não ter uma grande conquista para mostrar, de ser só mais um. E isso consome-me. Porque, às vezes, nem sei se o objetivo é mesmo ser excelente… ou apenas parecer. Vivemos num mundo onde tudo é feito para impressionar. Onde o “bom o suficiente” raramente é suficiente. Mas será que precisamos mesmo de ser extraordinários em algo? Ou podemos encontrar paz em sermos apenas bons, consistentes e felizes?



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