Sucesso… depende apenas de sorte ou trabalho?

   Depois de tanta desilusão com os discursos motivacionais vazios e as ideias tóxicas de meritocracia - como falamos na primeira parte -, surge a dúvida: então o que é que está nas nossas mãos? Vale mesmo a pena tentar?
  Curiosamente, há uma resposta mais esperançosa do que parece - e ela vem de estudos reais, não de frases feitas para vender cursos.
  Num estudo muito interessante, os participantes foram divididos em três grupos e convidados a pensar numa coisa boa que lhes tivesse acontecido recentemente. Depois disso, cada grupo recebeu uma tarefa diferente:

  • O primeiro grupo foi incentivado a refletir sobre as suas qualidades pessoais ou ações concretas que levaram a essa coisa boa.
  • O segundo grupo teve de pensar em fatores externos, ou seja, elementos fora do seu controlo que contribuíram para o acontecimento positivo.
  • O terceiro grupo apenas listou os fatores que levaram à situação, sem se focar num tipo específico de causa (funcionando como grupo de controlo).

  Após essa reflexão, todos os participantes foram informados de que iriam receber 1 dólar. No entanto, deram-lhes a opção de doar parte ou a totalidade desse valor para uma instituição de caridade. E o que aconteceu foi revelador: os participantes que refletiram sobre os fatores externos foram 25% mais generosos do que os que atribuíram o seu sucesso a qualidades pessoais.
Este estudo mostra uma coisa poderosa: quando acreditamos que tudo o que temos é resultado apenas do nosso esforço, acabamos por ver o mundo como justo. E quando achamos que o mundo é justo, tendemos a culpar quem ficou para trás, como se não tivessem lutado o suficiente. Isso faz com que sejamos menos empáticos, menos generosos e menos dispostos a ajudar - mesmo que, muitas vezes, não tenhamos consciência disso.
  O problema é que este pensamento ignora uma realidade: há muitas pessoas que se esforçam tanto – ou até mais - e não chegam lá. Porque o sucesso também depende de estar no lugar certo, com os recursos certos, rodeado das pessoas certas - ou simplesmente de nascer no país certo. A verdade é dura, mas precisa de ser dita: o local onde nasceste influencia fortemente as tuas hipóteses de ter sucesso na vida. E se quem conseguiu não reconhece a sorte que teve e não retribui, a próxima geração parte ainda mais atrás.
  Então o que se pode fazer?
  Reconhecer a sorte não significa desvalorizar o esforço. O sucesso é - quase sempre - uma combinação de trabalho árduo com oportunidades que te aparecem, mesmo que não tenhas feito nada para as merecer. E é precisamente por isso que continuar a tentar vale a pena. Porque cada tentativa é uma nova porta que se pode abrir. Cada projeto, cada conversa, cada gesto, pode ser o que te coloca no radar da pessoa certa. E, uma vez que isso aconteça, o teu esforço vai finalmente poder brilhar.
  Portanto, este texto não é para te desmotivar - é para te dar consciência. Para te ajudar a perceber que, se estás a tentar há muito tempo e ainda não foste visto, o problema não és tu. E se já alcançaste alguma coisa, talvez seja hora de agradecer à sorte que tiveste… e passá-la adiante.
Porque no fim, a pergunta que importa é:
E se hoje fores tu a sorte de alguém?

Parte 2/2


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