Será que basta querer para conseguir?

“Tudo acontece por uma razão.”
“Se quiseres muito, consegues.”
“Quem trabalha, sempre alcança.”

  Frases como estas são repetidas até à exaustão em livros de autoajuda, palestras motivacionais, publicações nas redes sociais, podcasts e, infelizmente, também em conversas com quem pouco entende da realidade da maioria. A ideia de que o sucesso depende apenas da força de vontade e do trabalho árduo pode parecer bonita à primeira vista, mas na prática é uma falácia perigosa. E pior: uma falácia que perpetua desigualdades e culpa quem não tem culpa nenhuma.
  O primeiro grande problema está em quem costuma dizer estas frases. Muitas vezes, vêm de pessoas com histórias cheias de “comecei do zero”... só que esse zero é relativo. Filhos de famílias estruturadas, com acesso a educação de qualidade, redes de contactos privilegiadas, estabilidade emocional e financeira - mas que ignoram tudo isso e contam apenas a parte em que “acordavam cedo e trabalhavam muito”. Como se fosse só isso. Como se fosse justo comparar o esforço de alguém que cresceu com tudo dado e o de alguém que tem de lutar por cada oportunidade.
  A ideia da meritocracia - que quem merece, conquista - é perigosa porque pressupõe que todos começaram do mesmo ponto. E não começaram. Uns começaram na linha de partida. Outros, cem metros atrás, com pesos nas costas. E há ainda quem nem sequer tenha tido o privilégio de saber que existia uma corrida.
  Quando se diz que “quem quer, consegue”, o subentendido é que quem não conseguiu, é porque não quis o suficiente. Mas e quem tentou várias vezes e nunca teve a oportunidade? E quem desistiu dos seus sonhos porque teve de ser realista, se queria comer? São preguiçosos? Ou vítimas de um sistema que favorece sempre os mesmos?
  Estes discursos motivacionais ignoram as estruturas sociais, económicas e emocionais que moldam o nosso percurso. Ignoram a sorte de ter nascido num contexto mais favorável, de ter conhecido a pessoa certa e de estar no lugar certo à hora certa. E quando sorte, privilégio ou contexto são ignorados, criamos uma ideia de sucesso quase mágica, mas profundamente injusta.
  E depois vem o lado mais cruel da positividade forçada. Aquela que te manda sorrir sempre, pensar positivo e nunca reclamar. A que te diz que estás onde estás porque queres e/ou porque não “mentalizaste” o sucesso. Uma positividade que silencia a dor, invalida emoções e reforça a culpa em quem já se sente fracassado. Porque, segundo essa lógica, se a tua vida não está a correr bem... a culpa é tua.
  Mas será que quem está no topo pensou mais positivo do que tu? Ou será que teve mais portas abertas - portas que talvez nem soubesse que estavam fechadas para os outros?
  É aqui que precisamos olhar para os privilégios. E não apenas os financeiros. Existem privilégios emocionais - como crescer num ambiente seguro, com amor e apoio -, sociais - como ter amigos ou família em posições de influência - e culturais - como fazer parte de um grupo favorecido pela sociedade em termos de género, raça ou orientação. Tudo isto conta. E muito.
  Pior que tudo é quando alguém que teve todos esses privilégios, usa a exceção para justificar a regra. “Olha aquele que conseguiu sair da pobreza, tu também podes!” - como se a exceção servisse para ignorar todos os que tentaram e não conseguiram, não por falta de esforço, mas por falta de condições. É como ver alguém atravessar o oceano num navio e gritar de lá de cima: “Se eu consegui, tu também consegues! Nada mais forte!” enquanto os outros se afogam sem sequer saber nadar.
  A verdade é que nem sempre o esforço é suficiente. Nem sempre querer é poder. E repetir estes clichés não só é inútil - é desonesto.
Será que a crença na meritocracia está a motivar... ou a frustrar?

Parte 1/2

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