Ser aceite vs. ser genuíno: quem é que estamos mesmo a tentar ser?
Há uma vontade quase desesperada
em sermos aceites. E essa vontade, ao contrário do que muitos pensam, não nasceu
com o TikTok ou com as redes sociais - já vem de longe. Sempre houve modas,
tendências, formas de vestir e comportar que definiam quem era “in” e quem era
“out”. Basta olhar para os anos 80/90, ou até bem antes disso. A Coco Chanel,
por exemplo, revolucionou o vestuário feminino no século XX, e a verdade é que,
desde aí, a moda passou a ser um reflexo do tempo, sim, mas também um espelho
do desejo humano de se encaixar.
No entanto, há algo na geração atual -
em especial nos jovens expostos diariamente às redes sociais - que parece
diferente. Talvez não seja um fenómeno novo, mas um fenómeno mais intenso. As
tendências não duram meses - duram semanas ou até dias. E, de repente, ser
aceite implica uma corrida constante atrás da próxima trend: seja o corte de
cabelo certo, a roupa do momento, a música viral, o sítio onde passar férias ou
o restaurante da moda. Já não basta gostarmos de algo - é preciso que esse algo
esteja na moda, que seja validado por milhares de likes e que tenha potencial
para ir para a “For you page”.
E o mais curioso - ou talvez o mais
triste - é que, mesmo sem usar o TikTok, percebemos as regras do jogo. Sabemos
que o algoritmo favorece quem segue a onda. Que quem quiser crescer, precisa
alinhar com o que está a dar. E como hoje “crescer” muitas vezes significa “ser
notado”, é fácil entender por que razão tanta gente abdica de si mesma para
caber no molde.
Mas o problema começa quando levamos
esse molde para fora do ecrã. Quando deixamos de pensar se gostamos mesmo de
determinada peça de roupa, ou se só a usamos porque todos usam. Quando nos
pintamos, penteamos, vestimos e falamos de uma certa forma não porque nos
identificamos, mas porque é isso que se espera de nós. Quando, no fundo,
deixamos de ser genuínos para sermos aceites - como se fossem duas coisas
incompatíveis.
Já me aconteceu observar um grupo de
rapazes à porta de uma escola e ver que todos tinham o mesmo corte de cabelo,
as mesmas calças, a mesma camisola. Literalmente o mesmo visual. E o mais
curioso: alguns deles, pelo tom de pele, tipo de cabelo ou traços faciais,
claramente não beneficiavam daquele estilo. Mas ninguém parece questionar.
Ninguém pensa: “Isto faz sentido em mim?” - porque a prioridade não é o que nos
assenta bem. A prioridade é não destoar.
E isso levanta uma questão importante: até
que ponto esta necessidade de pertencermos a um grupo nos está a fazer perder
aquilo que nos torna únicos?
Seguir tendências não é, por si só, um
problema. A moda pode ser divertida, criativa, até uma forma de expressão. O
problema é quando ela passa a definir-nos, ao ponto de já não sabermos
distinguir o que gostamos mesmo do que gostamos só porque está “na moda”.
A verdade é que ser aceite dá conforto.
Mas ser genuíno dá paz. E chega uma altura que precisamos escolher entre os
dois. Ou, pelo menos, tentar encontrar um equilíbrio. Não há mal nenhum em
usarmos a roupa do momento - desde que seja por gosto, e não por obrigação.
Desde que não percamos a nossa identidade no processo. Porque, no fim,
seguir todas as tendências pode até garantir-nos muitos likes… mas se,
ao olhar ao espelho, não nos reconhecermos, o que é que isso vale mesmo?



Comentários
Enviar um comentário