Quantas vezes por dia paramos para pensar nas coisas básicas que sustentam a nossa vida - e o quanto as tomamos por garantidas?
Hoje, como todos os outros dias, saí de manhã
para passear o meu cão. Pouco depois de ter voltado, a luz foi abaixo. O meu
primeiro pensamento foi que tinha sido apenas no prédio, já que o dia estava
limpo, típico de primavera. Uns minutos passaram e comecei a ouvir pessoas fora
do prédio a comentar que também estavam sem luz e água. Quando entrei no
Twitter, vi que tinha sido um apagão no país inteiro. Pouco depois, surgiram
notícias a dizer que o apagão não se tinha limitado a Portugal - tinha afetado
também Espanha e algumas cidades de Inglaterra, França, Alemanha e Itália. Ao
ler isto, confesso que fiquei ligeiramente assustado: nunca tinha presenciado
um apagão generalizado. E, como se não bastasse, minutos depois, juntou-se à
falta de eletricidade e água a ausência total de telecomunicações. Deixou de
ser possível telefonar ou usar a rede móvel. Estávamos, de facto, isolados do
resto do mundo. Teorias rapidamente começaram a surgir - umas diziam que tinha
sido um problema numa central elétrica francesa, outras falavam num possível
ataque cibernético, relacionado com a ajuda prestada à Ucrânia contra a Rússia.
Se fosse essa a causa, havia a possibilidade de ficarmos dias inteiros sem
acesso ao que, desde que nos lembramos de ser gente, nos parecia garantido.
Foi, então, num momento de silêncio - já que
só podia pensar, ler ou escrever em papel - que me ocorreu o quanto
desvalorizamos pequenas coisas como ligar a luz da casa de banho, abrir a
torneira ou carregar o telemóvel. Mesmo não tendo acesso a essas coisas, o
hábito levava-me, automaticamente, a tentar usá-las, só para ser lembrado de
que estava sem nada. Só quando tudo nos é tirado é que conseguimos medir o
quanto dependemos, e o quanto tomamos como certo, o que sempre esteve ali.
A verdade é que, na nossa rotina, as bases da
vida moderna - luz, água, internet, telecomunicações - tornaram-se tão
automáticas que raramente paramos para refletir sobre a importância que têm.
Abrimos a torneira sem pensar que a água que sai percorreu um longo caminho
para chegar até nós. Ligamos o interruptor sem imaginar tudo o que está por
trás de uma casa iluminada. Enviamos uma mensagem em segundos sem considerar as
infraestruturas que sustentam esse "pequeno" gesto. A gratidão vai
sendo esquecida, sufocada pela normalização da abundância. Não é porque somos
ingratos intencionalmente - mas porque, na pressa dos dias, esquecemo-nos de
perceber que o que é garantido hoje foi, em muitos tempos e lugares, um luxo
inalcançável.
O tema da nossa tendência para reclamar da
vida, mesmo sendo privilegiados, ficará para uma reflexão futura. Mas deixo já
uma provocação: se não somos capazes de agradecer pelo que é básico, como
podemos esperar sentir gratidão pelo que é extraordinário?
Talvez o grande erro seja acharmos que
"o normal" não merece o nosso reconhecimento. Que só aquilo que é
raro, grandioso ou espetacular merece um sentimento de gratidão. Mas a verdade
é que a vida é feita, em grande parte, dessas pequenas garantias que nem vemos.
Ter luz, ter água, ter rede para falar com quem gostamos, ter a liberdade de
abrir uma torneira e beber sem medo... Tudo isto são milagres disfarçados de
rotina. E se hoje fomos obrigados a parar, talvez seja para que não nos
esqueçamos que nada, absolutamente nada, é garantido.
No final de contas, a pergunta que deixo é: quantas
bênçãos nos passam despercebidas só porque nos habituamos a tê-las?



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