Quantas vezes nos apaixonamos mais pela ideia de alguém do que pelo que ela realmente é?
Fazendo esta pergunta, não me refiro só ao
amor romântico - falo de amizades, de familiares e de pessoas que admiramos.
Acho que todos nós já passamos por aquele momento em que conhecemos alguém,
gostamos de uma ou duas atitudes que essa pessoa teve... e, sem perceber,
começamos a preencher mentalmente todos os espaços vazios com qualidades que
desejávamos encontrar.
Às vezes, a conexão é real. Mas muitas
outras vezes, o que acontece é que nos deixamos encantar mais pela imagem que
construímos do que pela realidade que está à nossa frente.
Lendo e refletindo sobre isto,
percebi que é uma tendência natural. Faz parte da nossa vontade de acreditar no
melhor das pessoas, de querer ligações fortes e especiais. Mas também percebi
que é daí que nasce grande parte das desilusões: idealizamos tanto que qualquer
deslize ou qualquer diferença em relação ao que imaginávamos, pesa como uma deceção.
E é importante perceber: a tristeza por um erro é válida - é humano
sentirmo-nos magoados. Mas a desilusão profunda muitas vezes é responsabilidade
nossa. Porque esperamos mais do que a pessoa era capaz de oferecer, ignorando
sinais que, muito provavelmente, sempre estiveram lá.
Hoje queria explorar
exatamente isso:
- Apaixonar-nos pela ideia de alguém;
- Criar expectativas com base em poucas atitudes;
- E esperar, muitas vezes sem perceber, que as pessoas ajam como nós agiríamos.
E, quem sabe, refletir sobre
como podemos deixar de esperar versões perfeitas dos outros - e começar a
aceitar os outros como realmente são.
Uma das armadilhas mais fáceis em que caímos
é criar toda uma expectativa sobre alguém apenas com base em gestos isolados.
Às vezes basta a pessoa demonstrar um pouco de atenção, dizer as palavras
certas, ou partilhar uma visão parecida com a nossa para que, automaticamente,
atribuamos a ela uma série de outras qualidades - muitas vezes sem termos
provas reais disso.
É quase instintivo: queremos
acreditar que aquela primeira boa impressão é tudo o que precisamos para
confiar, para admirar, para nos ligar. Mas a verdade é que uma atitude bonita
não define a totalidade de uma pessoa, assim como um momento menos bom também
não define. Somos todos mais complexos do que qualquer instante.
O problema é que, ao criar uma expectativa
enorme a partir de tão pouco, deixamo-nos conduzir por uma imagem que criamos -
não pela realidade do que a pessoa é. E quanto maior a expectativa, maior o
choque quando vemos que aquela pessoa também erra, também é incoerente e/ou
também age de formas que não se encaixam nas projeções que fizemos.
Pessoalmente, adoro conhecer pessoas novas.
Não em grandes contextos sociais, mas sim numa conversa a sós, de 1 para 1. Há
uma alegria inexplicável em descobrir uma nova perspetiva de ver o mundo, uma
nova mente, uma nova história. A infinidade de temas que podem surgir a partir
de uma simples troca de ideias sempre me fascinou.
O que acontece, porém, é que muitas vezes crio uma ideia quase inabalável logo
na primeira impressão. Se for positiva, tenho dificuldade em aceitar que aquela
pessoa também falha e também toma decisões erradas. Se for negativa,
surpreendo-me quando vejo gestos bons e atitudes nobres. É como se, para mim,
as pessoas fossem 8 ou 80 - completamente boas ou completamente más - sem
espaço para a zona cinzenta que, no fundo, todos temos.
E é aí que mora a armadilha: quando idealizamos tanto, esquecemo-nos de ver o
ser humano real, que está para além da imagem que nós próprios criamos.
Idealizar alguém não só nos impede de ver a
pessoa real como também nos faz cair noutra armadilha: esperar que ela reaja,
pense ou aja exatamente como nós faríamos.
E isso é algo que, admito, ainda estou a aprender a aceitar. Muitas vezes, dou
por mim a pensar: "Se fosse eu, teria feito diferente", "Se eu
estivesse no lugar dela, teria agido assim..." Como se o meu modo de ver o
mundo tivesse de ser um padrão universal.
O problema é que, ao fazer
isso, esqueço-me de que cada um tem a sua história, as suas feridas e as suas
limitações - e que ninguém é obrigado a pensar ou sentir como eu.
Esperar que alguém tome as mesmas decisões que eu tomaria é não respeitar a
individualidade da pessoa.
É querer que ela seja um
a extensão de mim, quando na realidade ela é um
universo próprio, tão complexo e imperfeito quanto eu.
Lembro-me de uma situação num relacionamento
em que tive uma discussão e, no meio do conflito, estava à espera que a minha
namorada me defendesse. Para mim, era óbvio: eu já tinha feito isso por ela, e
faria novamente sem pensar duas vezes. Mas ela não o fez.
Na altura, fiquei profundamente desiludido. Na minha cabeça, defender quem
gostamos - seja amigo, seja parceiro - era algo natural, quase instintivo.
Hoje, com mais maturidade, consigo perceber que no pensamento dela talvez fosse
meter ainda mais "lenha na fogueira" se intervisse. Talvez, para ela,
proteger fosse manter-se em silêncio.
Mas, na altura, o que doeu não foi só o que aconteceu - foi a expectativa que
eu tinha criado de como ela deveria ter agido. E essa expectativa foi
construída com base na minha forma de ver e sentir o mundo, não na dela.
No fundo, é natural idealizarmos as pessoas -
especialmente quando gostamos delas.
Mas é importante fazermos um esforço consciente para ver o outro como ele
realmente é, e não apenas como gostaríamos que fosse.
Uma coisa que aprendi (e ainda estou a aprender) é que, para evitar desilusões,
devemos prestar mais atenção às ações consistentes ao longo do tempo, e não
apenas a gestos isolados que alimentam a nossa esperança ou os nossos desejos.
Amar alguém não é projetar nele um sonho ou
uma expectativa; é aceitar a pessoa real, com tudo o que ela é - e também com
aquilo que ela não consegue ser.
É perceber que todos somos falhos, todos temos os nossos limites, e que amar
verdadeiramente é também abraçar essa imperfeição.
E talvez o maior desafio, e
também o maior gesto de maturidade, seja conseguir olhar para quem temos à
nossa frente e, em vez de perguntar "porque não és como eu queria?",
conseguir dizer "consigo gostar de ti exatamente como és".
No final de contas, a questão
que deixo é:
Estamos a amar as pessoas reais ou apenas a ideia que criamos delas?



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