Qual o impacto da comparação constante?

  Às vezes, o problema não está na atividade em si, mas na forma como começamos a vivê-la - ou, mais especificamente, a compará-la. A comparação constante pode transformar algo leve e prazeroso numa fonte de frustração e desvalorização. O pior é que, muitas vezes, isto acontece sem darmos conta. E, quando damos, já estamos longe daquilo que nos fazia bem.
  Durante muito tempo, joguei um jogo online que me divertia imenso. O objetivo era colecionar items, fazer trocas com outros jogadores e, pouco a pouco, ir construindo a nossa fortuna no jogo. Ao início, jogava por diversão. Não me preocupava com mais nada além do tempo bem passado. Mas, com o tempo, comecei a observar os outros jogadores. Alguns tinham muito mais items raros e fortunas maiores, então, comecei a frustrar-me. Sentia que não estava a evoluir ao mesmo ritmo. E, ainda que soubesse que muitos deles gastavam dinheiro real no jogo (coisa que eu não fazia), isso não impedia a sensação de que estava constantemente a perder.
A comparação matou o prazer. E eu desisti de jogar.
  Meses depois, voltei, pela segunda vez - com saudades do jogo, mas com uma promessa feita a mim mesmo: jogar por mim. Sem olhar para o inventário dos outros, sem me comparar. Só pelo prazer de construir, aos poucos, a minha própria caminhada. E o resultado foi claro: voltei a divertir-me, muito mais do que antes. Porque deixei de medir a minha experiência com a régua alheia.
  Esta história é apenas um jogo. Mas também não é. Porque na vida fazemos exatamente o mesmo. Começamos a fazer algo por gosto - seja um curso, um projeto, um relacionamento - e, a certa altura, desviamos os olhos do nosso percurso e fixamo-los nos dos outros. E quanto mais olhamos para fora, menos conseguimos ver dentro. A alegria pelas nossas pequenas conquistas desaparece. A nossa autoestima oscila. E nem percebemos porquê.
  A verdade é que a comparação raramente começa como um plano consciente. Normalmente, começa devagar. Vemos alguém com mais resultados, mais reconhecimento, mais likes, mais viagens. E, aos poucos, começamos a olhar para nós com menos entusiasmo. Foi exatamente isso que aconteceu comigo no jogo: comecei a ver youtubers que falavam sobre o jogo, com acesso a mais recursos e até parcerias com os próprios criadores. Era normal que tivessem mais. Mas mesmo sabendo disso, era inevitável sentir-me “atrás”. O problema? É que a régua deles não era a minha. E, mesmo assim, eu tentava viver como se fosse.
  É fácil cair nessa armadilha. E difícil perceber que caímos. Eu mesmo demorei meses a perceber que o motivo da minha falta de vontade de jogar não era o jogo - era o facto de estar constantemente a olhar para os outros. E talvez na vida aconteça o mesmo. Talvez aquele curso que deixaste de gostar, aquela atividade que perdeste o gosto, ou aquela fase da vida em que te sentes menos capaz... talvez não tenha a ver contigo. Talvez tenhas apenas passado demasiado tempo a medir-te por fora, em vez de te ouvires por dentro.
  O sucesso dos outros não invalida o nosso. Nem tudo o que é valioso brilha da mesma forma. E há vitórias que só fazem sentido na nossa história - não na de mais ninguém.
  Não se trata de ignorar o que os outros fazem. Trata-se de respeitar o teu próprio tempo. De voltar a jogar por prazer, e não por ranking. De te lembrar que a régua dos outros mede a vida deles - não a tua.
  E tu… já te apanhaste a comparares-te com alguém?

Comentários

Se gostaste deste artigo, talvez gostes de um destes!