Preguiça ou procrastinação?
Se há algo que
parece perseguir qualquer pessoa com objetivos ambiciosos - ou até só com
coisas mínimas para fazer - é a famosa procrastinação. E não, não é a mesma
coisa que preguiça. Antes de partilhar a minha experiência, queria só trazer
aqui algumas informações que encontrei e que me fizeram refletir.
Primeiro: a procrastinação não
é, como muitos dizem, preguiça disfarçada. E a preguiça, por sua vez, também
não é um traço da personalidade. É um padrão. Um comportamento repetido, muitas
vezes inconsciente, motivado por diversos fatores - entre eles, a forma como o
nosso cérebro funciona.
O nosso cérebro é programado para nos
manter confortáveis, seguros e longe de qualquer esforço que pareça
“ameaçador”. A procrastinação acontece muitas vezes porque associamos
determinada tarefa a um desconforto (mental, físico, emocional) e, para nos
proteger, o cérebro adia essa ação. Troca por algo mais confortável, mais
imediato e/ou mais familiar. Pode parecer sabotagem, mas é só autoproteção.
Outro facto curioso: o cérebro
não distingue a verdade da mentira. Se disseres constantemente a ti próprio “eu
sou péssimo nisto”, ele vai acreditar e agir em conformidade. Mas o contrário
também é verdadeiro - se começares a repetir que és bom em determinada coisa,
mesmo sem sentir isso no início, o teu cérebro pode começar a alinhar-se com
essa ideia. Isso explica porque é que tantas técnicas de desenvolvimento
pessoal falam sobre afirmações ou visualizações positivas. No fundo, trata-se
de reeducar o cérebro.
Agora... tudo isto é muito bonito na
teoria. Mas, e na prática?
Eu já li artigos sobre este tema, já vi
vídeos com dicas para superar a procrastinação e já tentei aplicar métodos como
o “pomodoro”. Não vou dizer que nada funcionou, porque talvez o problema esteja
em mim. Talvez eu não tenha sido consistente. Ou talvez o que funciona para
uns, não funciona para outros. A verdade é que a procrastinação ainda é uma
presença constante na minha vida, especialmente nos meus projetos criativos.
Já escrevi dois livros e estou a meio
do terceiro. E a história repete-se sempre.
O primeiro livro comecei em 2021. No início, foi com
entusiasmo, mas por causa da escola e da vida, fui adiando. Cheguei ao final de
2023 com cerca de 20 mil palavras escritas e uma frustração imensa por ter
deixado aquilo arrastar-se durante dois anos. Foi então que, em dezembro,
decidi: “Eu não posso continuar assim. Falta pouco. Vou focar-me e acabar
isto.” Passei o mês inteiro a escrever, praticamente todos os dias. Entrei em
janeiro com essa mesma vontade, e mesmo com a sensação de que “falta pouquíssimo”,
ainda levei mais 15 dias a escrever em todos eles até às 2/3 da manhã. Mas
acabei o livro. E foi uma das melhores sensações da minha vida.
Com o segundo livro
foi igual. Tive a ideia em junho de 2024. Escrevi entre 10.000 a 15.000
palavras (outra vez 15 mil palavras!) e, como sempre, parei. A motivação
evaporou-se. Mas em dezembro (outra vez dezembro!), veio aquele estalo: “Já fiz
isto antes. Vou fazer de novo.” E assim foi. Um mês e meio, focado. Várias
horas por
dia. E o segundo livro ficou concluído.
Agora, no terceiro livro, adivinha? Já
escrevi 15 mil palavras (de novo o mesmo padrão). E parei. Já vou há um mês e
meio sem tocar nele. Zero produtividade. Só que a diferença é que, desta vez,
ao menos comecei um blog, que já levo há um mês sem falhar um único dia - o que
mostra que sou capaz de manter uma rotina. Mas a dúvida persiste: porquê que consigo
focar-me tanto em certas alturas, e noutras sinto que não consigo fazer nada?
Porquê esta oscilação entre um foco quase obsessivo e uma apatia total?
Não sei. Sinceramente, não sei.
Talvez seja um ciclo natural. Talvez o
meu cérebro precise mesmo desses períodos de pausa para recuperar energia
criativa. Talvez eu tenha dificuldade em manter projetos a longo prazo sem
perder o entusiasmo. Ou talvez... talvez eu só esteja a tentar encontrar uma
explicação lógica para algo que é mais emocional do que racional.
Este texto não tem como objetivo dar-te
soluções. Não sou coach de produtividade. Não sou psicólogo. Só sou mais uma
pessoa que se debate com isto, dia sim, dia não. E às vezes, só o facto de
escrever sobre o tema já ajuda. Pode ser que alguém que leia se identifique e
pense: “Olha, afinal não sou só eu.”
Se quiseres dicas, o Google está cheio
delas. Algumas talvez funcionem contigo. Comigo... ainda estou a tentar
descobrir o que funciona. Mas prometo que, assim que descobrir, venho cá
contar.
Até lá, seguimos. Mesmo que seja aos tropeções.
E tu, também te sentes preso entre
momentos de foco absoluto e fases em que não consegues fazer nada? Como lidas
com isso?



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