Homens e mulheres podem ser “só amigos”?
Durante muito tempo ouvi - e
ainda ouço - comentários que parecem vir de uma realidade paralela, como se
estivéssemos presos num enredo antigo e repetitivo. Um deles é a ideia de que
uma mulher e um homem heterossexuais não conseguem ter uma amizade verdadeira
sem que haja um interesse romântico ou sexual envolvido. Como se fosse
impossível existir uma conexão genuína entre duas pessoas que não partilham o
mesmo género, sem que uma delas quisesse “algo mais”.
Alguns dizem que, nessas amizades, “há
sempre um que sente algo” ou que “mais tarde ou mais cedo alguém se vai
apaixonar”. Outros - numa linha de pensamento que considero ainda mais
retrógrada - afirmam que as mulheres se aproximam de homens por necessidade de
aprovação masculina, e os homens se aproximam de mulheres à espera de uma
abertura para relações sexuais. Essa forma de pensar é limitadora, injusta e,
acima de tudo, triste.
Triste porque parte de uma lógica em
que as pessoas são vistas sempre como um meio para atingir um fim, seja ele
aprovação ou prazer. E mais triste ainda porque revela o quanto muitas pessoas
nunca tiveram o privilégio de viver uma amizade pura, sem jogos ou expectativas
escondidas, com alguém do sexo oposto. Mas eu tive. E não só tive, como tenho -
e guardo essas amizades com o maior orgulho e carinho.
A minha amizade com a minha irmã de
consideração dura há quase sete anos, dos quase vinte que tenho. Já andávamos
na mesma turma desde a primária, mas só começamos a falar a sério no oitavo
ano, quando descobrimos - durante o caminho para casa - que partilhávamos muitos
gostos em comum. Desde então, a nossa ligação cresceu e solidificou-se de uma
forma que não depende de estarmos na mesma escola, cidade ou fase de vida.
Hoje, estudamos em lugares diferentes, mas nada disso abalou a força da nossa
amizade. Pelo contrário, provou que ela é verdadeira.
Particularmente, nunca sofremos o preconceito diretamente, mas claro que as brincadeiras apareceram - até por parte
dos nossos pais. Comentários como “vocês deviam namorar” ou “quando é o
casamento?” são comuns. Para muitos adultos (e jovens também), é quase
impossível conceber que haja carinho, atenção e proximidade sem romance ou
desejo envolvido. É como se tudo tivesse de ter uma segunda intenção, um
segundo plano.
E talvez seja por isso que tantos
desconfiam: nunca viveram algo assim. Muitos homens, por exemplo, não conseguem
sequer imaginar uma relação íntima sem sexualização. Falo por mim: é difícil
encontrar homens da minha idade com quem consiga ter conversas profundas ou
significativas. Sinto que, no geral, existe uma falta de maturidade e uma
tendência para temas superficiais e desinteressantes. Claro que há exceções,
mas são raras. E talvez por isso, também, as minhas amizades mais sólidas e
transformadoras sejam com mulheres.
Essas amizades fizeram-me crescer.
Mostraram-me formas diferentes de ver o mundo, ensinaram-me a comunicar melhor,
a ouvir mais e a olhar para mim com mais honestidade. Se eu tivesse mantido a
mentalidade que tinha há cinco anos, como tantos outros, provavelmente não teria
conseguido manter estas relações. Elas foram e continuam a ser uma motivação
para me tornar uma versão melhor de mim mesmo.
A quem duvida que este tipo de amizade
possa existir, deixo um desafio: aprendam a olhar para as pessoas pelo que elas
vos podem oferecer a longo prazo, não apenas por prazeres momentâneos. Não há
nada de errado em procurar romance ou desejo, claro. Mas isso não tem de estar
presente em todas as interações. Nem toda a gente que entra na tua vida precisa
de ser um potencial parceiro amoroso. Às vezes, as melhores pessoas que vais
conhecer são aquelas com quem nunca vais trocar um beijo, mas com quem vais
partilhar silêncios, lágrimas, vitórias e, acima de tudo, crescimento.
E no fim de tudo, talvez a pergunta
certa não seja “é possível?”, mas sim: porque é que ainda achamos que não é?



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