E se tivéssemos nascido noutra condição socioeconómica… seríamos as mesmas pessoas?
Tudo começou com um hábito que
já referi antes: reclamar da vida e sentir que me faltam oportunidades para
mostrar ao mundo o meu valor. Num desses momentos de reflexão, decidi fazer
algo diferente - pesquisar qual era a probabilidade de ter nascido numa
condição socioeconómica melhor do que a minha. Sempre tive a sensação de que
quase toda a gente nasceu em contextos mais favoráveis que o meu. Nasci em
2005, numa família de classe média/baixa em Portugal, e, para mim, isso sempre
significou escassez e dificuldades.
A minha visão começou a mudar quando
reparei em certos contrastes que me marcaram. Lembro-me de ser obrigado a usar
manuais escolares em segunda mão, enquanto a maioria dos meus colegas usava
livros novos. Quando na escola nos pediam para contar o que tínhamos feito nas
férias, muitos falavam de viagens ao estrangeiro; eu apenas tinha ido à praia,
a 15 minutos a pé de casa. Nunca fui uma criança de pedir coisas, talvez
porque, inconscientemente, queria evitar ouvir os meus pais dizerem que não podiam
comprar. Mais tarde, já com acesso à internet, comecei a ver a realidade dos
que são verdadeiramente favorecidos - viagens constantes, presentes caros, uma
vida em que tudo o que queriam, tinham. Mas a frustração mais forte chegou já
na idade adulta, quando fui obrigado a congelar a matrícula da faculdade por
não conseguir pagar um quarto. Foi aí que percebi de forma crua que a falta de
dinheiro podia realmente moldar o meu destino.
Mesmo assim, ao aprofundar essa
pesquisa, descobri que, à escala mundial, nasci num dos 10 a 20% contextos mais
favorecidos do planeta, em termos de estabilidade, segurança e acesso a
recursos básicos. Essa descoberta deixou-me atordoado. Como é possível que uma
realidade que eu via como injusta e limitada, seja, na verdade, melhor do que a
realidade de 80% das pessoas que nasceram no mesmo ano que eu?
Foi aí que ganhei consciência de algo
essencial: o mundo não é o que vemos à nossa volta - é muito maior, muito mais
desigual, muito mais duro. Ao ser mais realista, percebi que não me posso
comparar apenas com os poucos milhões que mostram vidas de luxo nas redes
sociais. Tenho de me comparar com quem nem sequer acesso ao Twitter tem para
reclamar da vida ou ao Instagram para publicar uma foto a chorar nos stories.
Muitos ainda hoje precisam de caçar para comer. Outros andam horas para ir
buscar água para casa. Milhares morrem por doenças consideradas de baixo risco
nos países desenvolvidos, simplesmente porque não têm acesso a cuidados
básicos. Há crianças que viram pais dos próprios irmãos quando nem sabem ainda
quem são. É a essa realidade que tenho de olhar para pôr a minha em perspetiva.
Esse pensamento levou-me a outra
reflexão, talvez ainda mais complexa: o quanto a nossa condição socioeconómica
influencia a nossa personalidade? Porque, segundo diversos estudos, a nossa
personalidade é moldada por uma combinação de genética, educação e contexto
social. E se isso for verdade - e parece-me que é -, o meio onde nascemos tem
um peso gigante naquilo que somos. A forma como pensamos, sentimos, reagimos, o
que valorizamos, o que queremos da vida. Tudo isso é moldado, ainda que
parcialmente, pelas circunstâncias que nos envolvem desde o berço.
Por experiência própria e por
observação, vejo que muitas pessoas que nasceram em contextos menos favorecidos
tendem a ser mais humildes, mais empáticas, mais conscientes da dor alheia. Já
quem teve tudo de mão beijada - não todos, claro, mas muitos - parece carregar
uma certa arrogância e uma desconexão com a realidade da maioria. Isso fez-me
perguntar: se eu tivesse tido tudo desde sempre, se nunca me tivesse faltado
nada, teria ainda assim esta sede de crescer, esta vontade de mudar o meu
destino? Ou seria uma versão mais passiva de mim mesmo, acomodada à facilidade?
Talvez nunca saibamos a resposta. Mas é
inevitável pensar que a nossa luta é também a nossa força. Que o desconforto
gera movimento, e o movimento molda quem somos. Com esta nova consciência,
comecei a ver a minha própria história com outros olhos. Se antes via
obstáculos, hoje vejo oportunidades de crescimento. Talvez o maior privilégio
que eu tenha seja a consciência de que, mesmo sem ter tudo, tive o suficiente
para querer lutar por mais. Ainda assim, fica a dúvida: quem seríamos se
tivéssemos nascido noutra realidade?
E mais importante... quem é que ainda podemos ser, com a consciência que
agora temos?

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