Até que ponto a nossa aparência influencia a nossa vida?
Há temas que parecem
desconfortáveis de abordar, especialmente quando mexem com ideias que
preferíamos que fossem falsas. A importância da aparência é uma delas. Todos
nós ouvimos, desde pequenos, que “o que importa é o interior”, mas será mesmo
assim? Ou será que o mundo, mesmo sem querer, trata melhor quem se encaixa no
padrão de beleza socialmente aceite?
Antes de mais, convém definir o que
queremos dizer com “pessoa bonita”. Claro que a beleza é subjetiva - cada
pessoa tem gostos e preferências diferentes. No entanto, quando falamos em
beleza no contexto social, falamos daquelas pessoas que, de forma mais
consensual, são consideradas atraentes pela maioria. Aqueles rostos que chamam
a atenção sem grande esforço. Essa “beleza social” não é absoluta, mas é
suficientemente constante para gerar vantagens visíveis (e invisíveis) na vida
de quem a possui.
Pessoalmente, nunca senti que fui
tratado de forma diferente por causa da minha aparência - ou, pelo menos, não
conscientemente. Talvez tenha acontecido e eu nem tenha reparado. Também estou
num processo de tentar perceber se me encaixo ou não nesse padrão. Mas uma
coisa eu sei: existe, sim, um certo privilégio associado à beleza. E, muitas
vezes, esse privilégio é silencioso.
Se pensarmos em algo como uma
entrevista de emprego, há uma ideia que não me sai da cabeça: se dois
candidatos tiverem exatamente as mesmas qualificações, o mais bonito tem,
provavelmente, uma vantagem. Não porque seja mais competente, mas porque será,
aos olhos de quem o vai ver todos os dias, mais agradável de conviver
visualmente. Pode parecer injusto - e é -, mas é real.
Um estudo feito por Bradley J. Ruffle e
Ze’ev Shtudiner concluiu exatamente isso: eles enviaram milhares de
candidaturas com currículos idênticos e concluíram que candidatos considerados
atraentes recebiam mais convites para entrevistas - no caso dos homens.
Curiosamente, mulheres atraentes eram menos chamadas do que as de aparência
comum - provavelmente devido a inveja -, já que os recrutadores eram predominantemente
mulheres.
Mas os efeitos da aparência começam bem
antes da vida profissional. Desde cedo, há comentários que se fazem, quase sem
pensar, que criam uma desigualdade emocional. Quando numa sala se elogia os
olhos de uma pessoa, sem se dizer nada aos outros, a mensagem é clara: os olhos
dela são especiais, os dos outros são “normais”. E isto não é sobre ciúmes - é
sobre o impacto que essa ausência constante de reconhecimento tem na autoestima
de quem nunca é elogiado. A autoestima não nasce frágil. Ela vai diminuindo aos
poucos, como uma vela que se vai apagando com o tempo.
Este tipo de impacto é silencioso, mas
contínuo. Não vem com grandes gestos ou mudanças imediatas - vem com pequenos
detalhes acumulados ao longo do tempo. E isso vai moldando o modo como nos
vemos e como os outros nos veem. Existe um fenómeno chamado "efeito
halo", que nos leva a associar beleza a outras qualidades positivas.
Pessoas bonitas são frequentemente vistas como mais inteligentes, simpáticas ou
confiáveis, mesmo que não haja nada a provar isso. Ou seja, sem nos darmos
conta, acabamos por projetar qualidades em alguém só por parecer agradável aos
olhos.
É por isso que, muitas vezes, quem é
considerado bonito tem mais facilidade em estabelecer relações, criar redes
sociais, ou simplesmente ser ouvido. E isto não se aplica apenas à vida pessoal
- é um privilégio que se estende ao mundo profissional, judicial e até
académico.
Um estudo conduzido por Justin Gunnell e Stephen Ceci, da Universidade Cornell,
revelou que réus menos atraentes recebiam, em média, sentenças 22 meses mais
longas do que réus mais atraentes. Esse efeito foi particularmente evidente em
casos com provas ambíguas ou crimes menos graves, sugerindo que a atratividade
influencia as decisões dos jurados em situações de incerteza.
O que isto nos mostra é simples: não vivemos num mundo neutro. A beleza, mesmo
que nunca se peça, oferece um lugar à frente na fila.
Mas este privilégio não é
necessariamente algo que se veja de forma óbvia. Muitas vezes, são os pequenos
ganhos constantes que fazem a diferença. E por isso, quem não se encaixa nesses
padrões sente essa diferença, mesmo que nunca a consiga explicar com palavras.
É a ausência de elogios. A ausência de olhares atentos. É passar despercebido
quando se quer ser notado. E isso vai mexendo com a autoestima - não de forma
dramática, mas como uma gota que bate sempre no mesmo ponto.
Por outro lado, este é um tema que
também exige empatia. A intenção aqui não é dizer que pessoas bonitas não
sofrem ou que a beleza resolve tudo. Claro que não. Mas é importante reconhecer
que, à semelhança de outros privilégios - como o económico ou o social -,
também o privilégio da beleza existe. E negá-lo só atrasa conversas que podiam
ajudar muita gente a entender-se melhor e a criar mais empatia pelos outros.
A verdade é que vivemos numa sociedade
onde a aparência tem peso. Podemos lutar por um mundo mais justo, mais atento
ao conteúdo, mas não podemos fingir que o embrulho não influencia o modo como o
presente é recebido. A beleza continua a ser uma vantagem silenciosa - e
reconhecer isso não é atacar ninguém, é apenas dar nome a uma realidade que
muitos já sentiram, mas nunca souberam como explicar.
E tu, alguma vez sentiste que a tua aparência te abriu (ou fechou) portas?



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