Os nossos pais são felizes ou só se conformaram?

  O tema de hoje surgiu de um pensamento que me atravessou a cabeça: "E se eu não conseguir atingir o sucesso que tanto anseio?"
E não foi uma pergunta leve. Porque, honestamente, se eu não conseguir, acho que vou ter muito pouca vontade de viver. Não quero - mesmo - passar pela vida como vi os meus pais passarem: a trabalhar imenso, a ganhar miseravelmente, a fazer contas à vida todos os dias e a contar as moedas do bolso para alimentar uma família inteira.
  Mas atenção - isto não é uma crítica ou desvalorização do que os meus pais fizeram. Pelo contrário. Eu reconheço, com muita gratidão, que nasci numa realidade bastante mais confortável do que aquela em que eles nasceram. E eles estão agora numa situação muito melhor do que a de há 20 anos. Só que, ao pensar nisto tudo, pus-me a questionar: será que eles são felizes? Porque, se em tempos tiveram sonhos como os que eu tenho agora… então não os concretizaram. E isso podia ser suficiente para os deixar frustrados, não?
  Tive, então, uma conversa com o meu pai sobre este assunto. E ele respondeu-me algo que me marcou. Contou-me que, para ele, ser rico nunca foi uma possibilidade. Cresceu em condições muito precárias, num país com pouca estrutura e pouca visão de futuro, e isso moldou o tipo de sonhos que ele podia ter. Disse-me que via muitos homens a irem de bicicleta ou motorizada para trabalhar em fábricas, muitas vezes debaixo de chuva. E então fez uma promessa a si próprio: teria um trabalho que não fosse numa fábrica, e se um dia andasse de motorizada, seria por gosto - não por obrigação.
E ele conseguiu isso.
Fiquei sem palavras quando o ouvi. Porque além de ter cumprido essa promessa, conseguiu ainda dar-me uma vida onde eu tive liberdade para sonhar mais alto. Ou seja, enquanto ele foi obrigado a ser realista, eu pude ser idealis
ta. Ele cresceu a lutar pela sobrevivência. Eu cresci a lutar por realização. E isso diz muito sobre tudo o que ele (e a minha mãe) conquistaram.
  É estranho pensar que, para ele, o que conquistou já foi mais do que sonhou. E, no entanto, para mim, seria pouco. Mas talvez seja esse o ciclo natural das gerações: cada uma tenta dar o salto que a anterior não pôde. E às vezes esquecemo-nos de olhar para trás e ver o que já foi construído antes de nós.
Não há sonhos errados. Há sonhos moldados pelas circunstâncias. E quando as condições mudam, os sonhos também evoluem. Eu quero mais, mas só posso querer mais porque alguém antes de mim teve menos.
  A verdade é que a desilusão nasce quando as nossas expectativas não são correspondidas. E talvez o segredo esteja mesmo aí: o meu pai não teve espaço para sonhar demasiado alto - e por isso não teve tantas desilusões. Ele sabe que cumpriu o que se prometeu, e isso deve dar-lhe algum sentimento de paz e orgulho. Claro que não deve sentir-se 100% concretizado - eu sei que há coisas que ele gostava de fazer e ainda não teve oportunidade - mas, se eu conseguir chegar onde quero, talvez consiga retribuir e ajudá-lo a viver um pouco desses sonhos que adiou.
  Acho que a maioria das pessoas da minha geração não entende o privilégio que tem só por poder sonhar alto. Mas esse assunto fica para outro dia.
Hoje deixo-te esta pergunta:
  Alguma vez perguntaste aos teus pais se eles são felizes? Ou se apenas fizeram as pazes com o que foi possível?

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