Existem amizades de uma vida?

   Durante muito tempo, achei que uma amizade platónica era aquela que fazia todo o sentido num momento da vida, de tal forma que parecia ser imune ao tempo, mas que depois acabava ao mesmo tempo que o contexto em que estava inserida. Ao pesquisar para escrever sobre este assunto, acabei por descobrir que estava redondamente enganado, então vou partilhar um pouco de conhecimento histórico para que não se enganem como eu.

  Segundo algumas fontes, incluindo a Vogue Portugal, a expressão “amor platónico” foi defendida - embora nunca usada - pela primeira vez por Platão. Segundo ele, seria um amor essencialmente puro, que não se fundament
a em nenhum interesse (antes na virtude) e é desprovido de paixões - que, para ele, eram cegas, materiais, efémeras e falsas.

  Posto isto, queria voltar à questão inicial: existem amizades para a vida?
Como eu não sou idoso, não tenho prioridade para afirmar com certezas se existem ou não, mas quero partilhar a minha opinião. Claro que acredito que é possível ter amizades que durem uma vida inteira. Porém, também acredito que seja extremamente difícil encontrá-las. E talvez essas sejam as verdadeiras amizades platónicas - definidas por um amor essencialmente puro, que não se fundamenta em nenhum interesse e é desprovido de paixões.

De certa forma, até pode parecer sem sentido eu dizer isso, uma vez que não tenho muitas amizades, e das poucas que tenho, colocaria as mãos no fogo de que duas delas vão ser para sempre. Soa bem - seria uma taxa de sucesso bastante elevada para algo considerado raro. Mas é assim que eu sinto.

  E isso leva-me a questionar: por que motivo algumas amizades parecem que vão durar para a vida… e depois simplesmente deixam de fazer sentido?
Durante os anos, tive várias amizades com colegas de turma, e sabia que essas iam acabar eventualmente. Mas houve uma que me apanhou de surpresa. Vamos chamar-lhe Emily.

A Emily fazia parte do meu grupo, onde estavam também as minhas duas grandes amigas. Durante um bom tempo - talvez por não querer ver a realidade - achei que a amizade com ela também ia durar bastante tempo. Só que acabou por não ser verdade.

Depois de um desentendimento - coisa que quase nunca acontece com as minhas duas grandes amigas - a Emily não demonstrou muito interesse em resolver a situação. E eu também não senti que fazia sentido ir atrás de alguém que tinha um problema comigo e não vinha falar sobre ele. Então, simplesmente, cada um seguiu a sua vida.

  Com isso, voltei mentalmente atrás (coisa comum, como já referi noutro texto) e fui 'rever' certas coisas do passado. E, na verdade, era evidente que aquela amizade não ia durar - eu é que não via isso na altura.
Sempre que o grupo se encontrava, a conversa girava muito à volta dela. Em muitos contextos, fazer algo a três fazia mais sentido do que incluí-la. E na nossa visão de futuro, ela era a única que não tinha qualquer perspetiva para a vida.

  Vendo desta forma, realmente nunca iria ser uma amizade duradoura. Mas, enquanto a vivi, até acreditava que ia ser. Isso fez-me perceber que nem todas as ligações têm que durar para sempre - e que algumas, por mais intensas que sejam num momento, existem apenas para aquele capítulo.

  Talvez o segredo esteja em saber distinguir quando vale a pena lutar por uma amizade e quando é melhor deixá-la ir.

E vocês, acham que devemos lutar por todas as conexões?

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