Existe mesmo um 'eu verdadeiro'?
Já te perguntaste
quem és quando estás sozinho, sem ninguém à volta, sem a influência das pessoas
que te rodeiam?
Eu já. E, honestamente, não tenho a certeza se sou exatamente a mesma pessoa em
todos os contextos.
Lendo sobre o assunto, descobri que
existem várias teorias que defendem que todos temos diferentes versões de nós
mesmos. A que mais me chamou à atenção foi a Teoria da Multiplicidade da
Personalidade, que sugere que cada pessoa possui múltiplos "eus"
que se manifestam em diferentes situações sociais e emocionais. A ideia não é
que estas versões sejam falsas - muito pelo contrário. São adaptações naturais
que nos ajudam a navegar o mundo.
Carl Jung, por exemplo, introduziu o
conceito de persona - uma espécie de máscara que usamos para nos
apresentarmos ao mundo em diferentes situações. Mas ele também alertava: se não
estivermos conscientes dessas máscaras, podemos afastar-nos daquilo que ele
chamava de "eu autêntico".
Falando agora de mim, consigo ver bem essas versões diferentes a atuarem
consoante o contexto:
- Nunca
estive num ambiente profissional muito formal, por isso não tenho grandes
exemplos nesse sentido.
- Mas
quando estou com desconhecidos, como num jantar de aniversário onde
só conheço o aniversariante, fico mais calado e observador. Gosto de
perceber como as pessoas falam, se interrompem, se ouvem, se riem - é
quase um passatempo meu.
- Com
os familiares próximos, fico à vontade, mas noto que me contenho
mais na linguagem. Não uso tanto gírias como "bue" ou
"ya", não por censura, mas porque parece simplesmente natural
evitá-las. Já o humor, esse sai sem grande filtro.
- Com
os amigos próximos, sou muito mais solto. É onde me sinto mais à
vontade para ser extrovertido, rir, brincar e usar o meu sentido de humor
ao máximo.
- Com uma namorada, é parecido com estar entre amigos, mas com um toque mais doce e brincadeiras mais intencionais.
- E quando estou sozinho... aí sou talvez a versão mais séria e introspetiva de mim. É quando me ouço, penso mais, analiso. É uma versão mais crua, talvez, mas também mais silenciosa. É aqui que sou emocional e aberto a sentir a dor - sem distrações, sem máscara, sem precisar fingir que está tudo bem. É quando a máscara cai por completo e me deixo sentir tudo o que durante o dia me distrai de sentir - a ansiedade, as dúvidas, o medo de falhar. Ali, no silêncio, sou só eu e o peso de ser eu. Mas é também nesse espaço que me conecto mais comigo. Onde não tenho que agradar ninguém. Onde posso ser só humano.
Já dei por mim a rir com amigos e, horas depois, a duvidar de mim sozinho. Já fui confiante numa conversa e cobarde noutra. Já fui racional numa discussão e impulsivo noutra igual. E isso levanta a dúvida: será que todas essas versões se anulam ou se complementam?
Por isso, sim, acredito que todos temos várias facetas diferentes, de forma a nos adaptarmos melhor às circunstâncias. E isso não significa que somos falsos. Significa que somos complexos. Sabemos quando ceder e quando manter firme aquilo que somos. E talvez seja exatamente essa a beleza de ser humano: sermos muitos sem deixar de ser um.
Talvez o desafio não esteja em descobrir “quem és de verdade”, mas em aceitares que és feito de todas essas versões. Que o teu “eu verdadeiro” está no meio do contraste - entre o que mostras e o que guardas, entre o que dizes e o que pensas.
E tu… consegues ouvir quem és no silêncio?



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