Ainda vou a tempo…?
Tal como eu, acredito que a maioria das pessoas - se não mesmo todas -
já duvidaram de si mesmas, seja por acharem que fizeram algo tarde demais… ou
cedo demais. Esta dúvida parece fazer parte da experiência humana,
especialmente quando o assunto são relações amorosas. Foi exatamente por isso
que quis escrever este texto: para falar sobre o tempo. Ou melhor, sobre o que
nos dizem que é o tempo certo para amar, para sentir, para viver.
Existe mesmo uma idade certa para ter o
primeiro beijo? Para a primeira relação sexual? Para casar? Para ter filhos? Há
mesmo um momento ideal para tudo isso? Ou será que fomos ensinados a seguir um
guião que nem sabemos quem escreveu?
Desde pequenos que sentimos uma certa
pressa em viver. Aos 12, muitos já sonham com o primeiro beijo. Aos 16 ou 18,
vivem com a expectativa da primeira relação sexual. E depois, aos 25/26, já
começam a pensar se deviam estar a casar, a comprar casa, a ter filhos. Parece
que, de alguma forma, andamos sempre a desejar aquilo que ainda não temos. Uma
espécie de insatisfação crónica que nos faz viver à frente do tempo, como se
estivéssemos constantemente a tentar alcançar a próxima etapa, sem saborear o
agora.
Mas e se, em vez disso, aprendêssemos a
aceitar o tempo que temos? A honrar o presente? A perceber que não há um
relógio universal que dita quando cada coisa deve acontecer? Talvez, só talvez,
isso nos trouxesse mais paz.
Claro que isto é mais fácil de dizer do que de fazer. Eu próprio tenho noção de
como pode ser difícil aceitar o nosso próprio tempo, especialmente quando
começamos a sentir que estamos a ficar para trás. Essa sensação, por mais
injusta que seja, torna-se ainda mais real quando as pessoas à nossa volta -
sobretudo os nossos amigos mais próximos - começam a viver coisas que nós ainda
não vivemos.
É como se, de repente, a vida se transformasse numa corrida silenciosa, em que
estamos todos a competir para ver quem beija primeiro, quem casa primeiro, quem
tem filhos primeiro. E, pior ainda, muitas vezes nem damos por isso. Só
sentimos aquele aperto no peito que vem do pensamento: “Já devia ter acontecido
comigo.”
Mas a verdade é que cada um de nós tem o seu tempo. Não estamos todos no mesmo
ponto de partida, nem temos os mesmos obstáculos no caminho. E o que parece um
desvio no nosso percurso pode ser, na verdade, o que nos leva exatamente onde
precisamos de estar.
Esta vontade de “chegar lá” não é nova.
Desde sempre que as crianças olham para os adultos e sentem vontade de crescer
depressa. Sempre houve aquele fascínio pelas coisas que os adultos faziam e
que, de alguma forma, pareciam divertidas - porque implicavam uma certa
liberdade, poder, ou simplesmente porque pareciam ser “coisas de gente
crescida”.
Mas, apesar de isso já acontecer há gerações, sinto que hoje essa vontade tem
vindo a aumentar - muito por causa das redes sociais. E atenção, não estou aqui
a fazer um discurso contra as redes sociais, até porque seria um pouco
hipócrita da minha parte. Eu sou da geração Z, ou seja, não nasci com um
smartphone na mão… mas quase. Estou claramente a caminhar para ter vivido mais
anos da minha vida com um smartphone do que sem. Portanto, não me estou a
excluir deste mundo - só acho que é importante refletir sobre o impacto que ele
tem.
As redes sociais mostram vidas perfeitas, amores perfeitos, momentos perfeitos.
E as crianças, que estão cada vez mais expostas a isso, acabam por desejar
essas coisas antes de tempo. Sonham com o amor antes sequer de saberem o que
ele é. E aqui levanto uma questão: será que essas crianças querem realmente
viver o amor... ou será que querem viver a ideia do amor que lhes foi vendida?
Porque com 12 anos, por muito que se veja filmes ou se leia livros, acho
difícil ter uma noção real do que é amar - e ser amado.
Talvez seja essa ânsia de viver tudo tão rápido que faz com que muitas pessoas
entrem em relações que não deviam. Relações que, pela idade, maturidade ou
falta de autoconhecimento, acabam por correr mal. Porque há quem ache que está
pronto para viver um amor, quando na verdade só se cresce emocionalmente depois
de o amor ter terminado. E está tudo bem com isso. Não é vergonha nenhuma
reconhecer que a maturidade vem com a experiência - e não antes dela.
A verdade é que sim. Sempre vamos.
Viver fora do prazo dos outros não é sinónimo de falhar - é, muitas vezes, sinónimo de coragem. Coragem de respeitar o nosso ritmo, o nosso tempo, os nossos sentimentos. Porque a vida não é uma corrida para ver quem chega primeiro, mas sim uma viagem para descobrir quem somos ao longo do caminho.
Talvez devêssemos passar menos tempo a olhar para os lados e mais tempo a olhar para dentro. Menos tempo a comparar e mais tempo a viver. Porque ninguém vive a nossa vida por nós - só nós é que sabemos, de verdade, o que faz sentido no nosso agora.
E se ficares só com uma frase deste texto, que seja esta:
“Não estás atrasado, estás exatamente onde tens de estar para aprender o que precisas de saber.”



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