Introspeção crónica: quando pensar demais se torna um problema?
Escolhi este tema, porque é algo que me
acompanha de forma constante. Não diria que nasceu comigo, mas já há muitos
anos que reconheço em mim a presença insistente de uma voz interior. Uma
espécie de narrativa contínua, onde quase todos os pensamentos ganham forma de
diálogo.
Por vezes, essa introspeção intensifica-se ao ponto de sobrepor-se à própria experiência. Em vez de simplesmente sentir o que há para sentir, dou por mim a mergulhar num nevoeiro de dúvidas, reflexões e análises intermináveis. É como se a mente criasse um filtro entre mim e o presente, afastando-me do momento em vez de me aproximar.
Apesar de todos esses anos com a voz ativa
dentro de mim, só comecei a vê-la como uma aliada há três anos e meio, quando
descobri que gostava de escrever romances.
Antes disso, não lhe
encontrava grande utilidade. Talvez pela imaturidade própria da idade, usava
esse diálogo interno como uma forma de fuga. Lembro-me de estar a estudar temas
que não me diziam nada e, de repente, estava a vaguear mentalmente. Inventava
conversas, ensaiava cenários imaginários, fixava o olhar num ponto indefinido
qualquer. Fazia tudo… menos estar presente. Durante esse tempo, achei mesmo que
não tinha criatividade. Que não sabia escrever. Que era apenas alguém que
pensava demais - e pronto.
Esse excesso de pensamentos também invadia
momentos em que o melhor teria sido simplesmente sentir. Recordo-me, por
exemplo, de estar com uma namorada e, enquanto nos beijávamos, em vez de me
deixar ir, a minha cabeça começava: “Será que devia pôr a mão aqui ou ali? Será
que isto está a ser estranho? Será que já passou demasiado tempo?”
E, claro, essa constante análise arrastava-me para fora do momento. Eu estava
ali… mas não estava. E isto não acontecia apenas nos momentos íntimos.
Também se manifestava, por
exemplo, nas apresentações orais da escola. Sempre tive uma relação difícil com
esse tipo de exposição. Para além de introspetivo, também lido com fobia social
- algo que já explorei noutro texto - o que tornava estas situações
especialmente desafiantes.
Como me sentia vulnerável a
falar para várias pessoas, desenvolvi uma estratégia de sobrevivência: decorava
tudo ao milímetro e recitava como uma gravação. O corpo falava. Já a mente,
estava noutro lugar.
Enquanto o guião saía da minha boca, o pensamento disparava: “Estão todos a
olhar para mim? Já passou muito tempo? O professor está atento? Estou a ir
depressa demais?”
E este ruído mental impedia-me
de viver a experiência com presença. Porque, se estivesse verdadeiramente lá,
consciente do que dizia, mesmo que me perdesse, conseguiria retomar. Mas não.
Estava desligado - como se o corpo falasse por inércia, enquanto eu me
observava de fora.
Contudo, tenho ouvido que a meditação pode
ajudar. Que é possível aprender a ganhar distância dessa voz interior que,
tantas vezes, não se cala. Ainda não me dediquei a isso de forma séria, mas o
conceito faz sentido. Talvez a questão não seja calar os pensamentos, mas
aprender a conviver com eles - sem que se tornem donos de tudo.
Hoje percebo que esta
introspeção crónica não é, por si só, uma vilã. Na verdade, foi ela que me
levou à escrita. Foi nesse mundo interior que encontrei as primeiras histórias,
as primeiras personagens, as primeiras tentativas de traduzir em palavras o que
sentia.
Se calhar, o segredo está no
equilíbrio: reconhecer esta natureza sensível e pensativa, mas também saber
colocá-la em pausa quando o momento exige presença.
Nem tudo precisa de ser
compreendido. Nem tudo tem de ser passado a limpo ou analisado ao pormenor.
Há momentos que pedem apenas para ser vividos.
E tu - sabes reconhecer quando é tempo de pensar… e quando é tempo de apenas sentir?



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