Consegue-se ser fiel ao seu eu introvertido e ainda prosperar socialmente?

  Desde a minha adolescência que sei que não sou extrovertido. É bastante evidente. Mas, se não sou extrovertido, sou introvertido?
  Após algumas pesquisas, descobri que a realidade não é tão preto no branco. Existem algumas expressões que são, frequentemente, entendidas de forma errada e vou explicá-las de uma forma resumida:
- Extrovertido: O extrovertido vive para socializar. Ele sente-se energizado em ambientes sociais e ao interagir com os outros. Gosta de conversar, expor ideias e estar rodeado de gente.
- Introvertido: O introvertido prefere ambientes mais calmos e recarrega energia quando está sozinho. Gosta de estar com pessoas, mas em doses controladas. Não é necessariamente tímido.
- Tímido: Uma pessoa tímida sente-se desconfortável ou ansiosa em situações sociais, especialmente com pessoas novas. Ele quer socializar, mas sente-se travado.
- Fóbico social: Já o fóbico social vive uma ansiedade intensa perante interações sociais, ao ponto de evitar certas situações por medo de julgamento, humilhação ou rejeição. Vai além da timidez - é uma condição que interfere seriamente com o dia a dia.

   Ainda assim, apesar destas diferenças, há um ponto comum entre os ‘antagonistas’ dos extrovertidos: a forma como todos estes perfis mais reservados lidam com um mundo que parece ter sido desenhado para quem fala mais alto.
  Vivemos numa sociedade que recompensa a exposição, a rapidez e a presença constante. Desde a escola até ao mercado de trabalho, a mensagem é clara: ser social é sinónimo de sucesso. E quem não se encaixa nisso?
  Na sala de aula, quem participa mais é muitas vezes visto como mais inteligente. No trabalho, quem participa mais nas reuniões parece mais confiante. Nas redes sociais, quem mostra mais, vive mais - pelo menos na perceção dos outros. A cultura dominante valoriza quem se faz notar. E isso pode fazer com que os introvertidos sintam que precisam de se adaptar para caber nesse molde.
  Mas essa pressão para representar um papel mais extrovertido é cansativa. Não porque introvertidos não consigam socializar, mas porque o fazem de forma diferente - com pausas, com mais silêncio, com mais profundidade. E quando esse estilo é confundido com desinteresse ou frieza, o esforço para se ‘ajustar’ torna-se ainda maior.
  E é aqui que entra a pergunta que deu início a este texto: é possível prosperar socialmente sem trair o nosso lado mais reservado?
  Ser fiel a si mesmo, no caso de um introvertido, não significa fechar-se ao mundo. Significa escolher com mais intenção onde se está e como se está. É perceber que não precisamos de estar sempre a falar para sermos ouvidos. Que as verdadeiras ligações nem sempre nascem do ruído. E que há força numa presença mais calma, que observa antes de agir e sente antes de responder.
  Prosperar socialmente talvez não passe por gritar mais alto numa sala cheia, mas por saber quando falar - e quando estar calado. Talvez o impacto venha da escuta atenta, da empatia, e de uma clareza que vem depois de pensar bem - em vez de uma resposta automática.
  Durante muito tempo, também achei que a introversão era uma desvantagem social. Mas basta olhar com atenção para perceber que não é bem assim. Várias figuras com grande impacto identificam-se como introvertidas. A Emma Watson, por exemplo, já falou sobre o valor que dá ao silêncio e à introspeção. Barack Obama, apesar de ter sido Presidente dos Estados Unidos, é conhecido por ser ponderado, reservado e alguém que pensa antes de falar - e talvez seja por isso mesmo que foi tão respeitado.
  Estes exemplos não servem para mostrar que todos os introvertidos devem ser famosos ou líderes mundiais. Servem para lembrar que há muitos caminhos para se ter impacto. E que ser fiel ao que somos não nos afasta da vida social - pode até ser o que nos dá mais força.
  Talvez a questão não seja mudar quem somos, mas perceber que há várias maneiras de estar no mundo - e todas contam. Ser introvertido não é ser menos sociável, menos interessante ou menos capaz. É apenas uma forma diferente de sentir e de se expressar.
  O mundo pode ter sido feito para quem fala mais alto, mas também precisa - e muito - de quem ouve com atenção, observa com sensibilidade e escolhe as palavras com intenção. Há espaço para todos. E às vezes, o verdadeiro poder está mesmo em não tentar ser tudo para todos.
  No fim, não se trata de levantar mais a voz para ser ouvido - mas de encontrar um lugar onde a tua voz, mesmo que calma, tenha eco.

 E tu? Já sentiste que tinhas de ser ‘mais’ para pertencer?

 





Comentários

  1. Sentir que devia ser "mais" é algo constante em mim. Eu também tenho grandes dificuldades em socializar, apesar de querer muito fazê-lo. Muitas vezes sinto que não pertenço em lado nenhum, porque parece que nunca consigo permitir-me apenas "ser". Sempre que falo com alguém tenho uma vozinha na cabeça que diz que tenho de ser interessante. E, então, acabo por fazer um esforço enorme para ser quem eu não sou. Não sei se sou introvertida. Acho que sou o que chamam de "ambivert" - uma pessoa que se pode sentir energizada tanto em situações sociais como em momentos em que se encontra sozinha com os seus pensamentos. Aprender a libertar-me do meu medo de não agradar é uma batalha que estou a enfrentar.
    Este artigo trouxe-me um grande conforto, porque relembrou-me que não tenho (nem devo!) de tentar ser quem não sou para sentir que pertenço. Obrigada Pro Thinker! Vou acompanhar todos os posts <3

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    1. Muito obrigado pelo comentário! Sim, todos devemos relembrar-nos diariamente que somos suficientes e que não precisamos ser outra pessoa para sermos melhor.

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